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Luthier em Salvador – primeiras impressões

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Versão da Catarina

Ao acordar em Salvador, no dia seguinte ao da nossa chegada, com o Luthier atracado no Terminal Náutico da Bahia, tive duas primeiras impressões: a maior luminosidade do local, (pudera, estamos andando atrás do sol!), e sua riqueza histórica, proporcionada pelas construções centenárias, encravadas no morro, e pelo Forte de São Marcelo.
Quando atracamos em qualquer porto, depois de uma viagem, o combinado é tirar o dia de folga, para relaxar e comemorar; no dia seguinte é que vamos pensar em tirar o sal do convés, e colocar as coisas no lugar.
Então, fomos ao Mercado Modelo, que fica em frente ao TENAB, para passear. Almoçamos no segundo andar do prédio, com direito à vista da Bahia de Todos os Santos, ao mar, nos seus vários tons de verde, ao movimento das embarcações, apreciando um prato regado à pimenta, azeite doce, e farofa de mandioca.
Depois, fomos andar pela cidade, então, outra sensação: a de perfume no ar, de incenso, misturado ao de azeite de dendê, ao das frutas nas bancas, do jenipapo no ponto para o licor, de bolo assando nos fornos, de rosas e outras variedades de flores, vendidas em barracas, e lançadas em oferenda por mulheres, na ponta do cais.
Não que a cidade seja um primor de limpeza, não é, há muitos casarões abandonados, aos fins de semana há lixo de montão, não recolhido, e por aí vai, mas acho o vento constante, que sopra por aqui, faz prevalecer o perfume local, das frutas, flores e alimentos.
No TENAB, atracamos ao lado de um barco suíço, e de frente para um Catamarã, sul- africano. Ambos estavam em Búzios, na mesma época que nós; à nossa volta, muitos outros barcos estrangeiros, a maioria, franceses.
Os estrangeiros embarcados se vestem, sem receio, de uma forma totalmente diferente dos locais. Acho que não observam os hábitos, e as diferenças de clima; dá até medo de andar ao lado deles na rua, parece que, na testa, já trazem escrito: assaltem-me, por favor! Encontramos, perto do Mercado Modelo, o capitão de uma embarcação estrangeira que conhecemos em Paraty. Estava chovendo, naquele dia, e ele usava uma sombrinha cor-de-rosa, “pink”, além de colete cheio de bolsos, rabo-de-cavalo, e os próprios olhos azuis, mas esses, não tem jeito de esconder.
A minha mãe diz que se disfarçar de morador local é perda de tempo; me aconselha a relaxar, e tomar uma água de coco. Acho que tem limite, mas ela tem certa razão: no Pelourinho, tivemos muito assédio de vendedores e pedintes, logo na saída do Elevador Lacerda, muitos tentando se comunicar em inglês comigo; a solução foi o Dorival dizer: “Sou daqui, ela está comigo”. Deu certo, eles se dispersaram.
Esse assédio todo só aconteceu nos pontos turísticos; foi tranqüilo andar pelo centro da cidade, que concentra a sede de bancos e prédios públicos, assim como no supermercado e no shopping. E, aos poucos, eles vão se acostumando com a nossa presença, como no Mercado Modelo, onde alguns vendedores já nos cumprimentam, e mesmo no Pelourinho.
E se há uma roupa que a baiana gosta é o “jeans”, de preferência a bermuda, que deixa mais à vontade, acompanhado de blusa verde, em vários tons claros; já cheguei a contar 5 vestidas assim, num grupo de 10, é muito!
Fomos ao Shopping Iguatemi, que é enorme. Achei interessante o fato haver uma capela, lá dentro, que indica a quantidade de igrejas, por aqui, e a religiosidade do povo. Além disso, têm um andar, o último, só com marcas de grife, de roupas e sapatos; as pessoas dos pisos inferiores não frequentam este andar, muito menos nós, que descemos rapidinho. Indício de um sistema de casta, ainda que informal. No cafezinho, tem doces e salgados típicos; o meu preferido é o lelé, que leva coco e milho, e não é muito doce.
Chegamos no mês de São João, que por aqui é levado a sério, uma festa familiar muito aguardada. Parece até fim de ano, com confraternizações nas empresas, caixinha tipo “boas-festas” no restaurante, etc.. Vimos uma confraternização de contabilistas, numa praça do centro comercial, com comida típica e música ao vivo. E muitas outras festas, principalmente, no espaço do Pelourinho, com shows ao vivo e barracas de comida.
Algumas pessoas, do nosso convívio, me perguntaram: E o São João? Como a dizer, o que você vai fazer de bom? E eu não sabia o que responder, porque não era do meu costume comemorar, assim; acabei falando o que eles acham o mais triste: “Vou passar em Salvador, mesmo”. E muitos desejavam: “Um “éxcelente" São João, para você”, que é pronunciado com a tônica no “ex”.
Tiro o chapéu para os baianos: notei que, mesmo pessoas mais simples, usam os plurais, observam as concordâncias dos verbos, em frases pausadas. E colocam muito carinho nas palavras: o “painho”, usado aqui, é uma graça; deve ser a glória para o pai, que ouve. Além disso, eles gostam de conversar, e têm o dom da argumentação: fazem ponderações, tiram conclusões. Só disse, na barraca do acarajé, que preferia o abará. E começou a polêmica: “Eu nunca me fiz essa pergunta…”, disse uma moça, e por aí foi….
Fico imaginando que isso pode ser herança dos portugueses, que chegavam por aqui, discutindo a melhor rota, os lugares para se abrir os olhos, a bitola dos cabos, os ventos, etc…, naquelas conversas longas, e cheias de ponderações, a que se atém os velejadores, até hoje, durante horas, que não se vêem passar.
As pessoas aqui são tranquilas, falam baixo nas ruas, supermercados, shopping, e as crianças não fazem escândalo.
Sou alérgica a frutos do mar. Nos restaurantes self-service, muitos pratos são de comidas típicas com camarão, então, não posso pegar nada que está ao lado, naquela “neura” de um talher ter sido trocado por outro; aí, vou ficando com as últimas opções, a mais frequente, frango de cardíaco, aquele bem branquinho, cor e sabor de isopor.
Dias desse, eu provei um pedaço de abará, que uma moça na barraca disse não ter camarão, mas depois, a baiana que cozinha disse que o põe, na receita dela. E não aconteceu nada comigo. Estou pensando na possibilidade de comer um abará completo para testar. Depois eu conto no que deu.

Como dizem por aqui: um feliz dia, para vocês!

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Versão do Dorival

“Os saveiros, de velas coloridas, cortam a baía de Todos os Santos, vêm de Mar Grande, de Maragogipe, de Cachoeira e São Félix. No cais Cairu, em frente ao Mercado, eles descansam. Ali arriam as velas, ficam balouçando tranqüilamente sobre as águas”. Bahia de Todos os Santos – guia de ruas e mistérios – Jorge Amado – 1945.

Sessenta e quatro anos depois, no píer do Terminal Náutico da Bahia, com as velas arriadas, o Luthier está balançando tranquilamente sobre as águas. Está atracado de popa, preso por dois cabos, boreste e bombordo, em pneus que estão fixados a cunhos do flutuante. Os pneus ajudam muito, aliviando o esforço, nos cunhos e passa-cabos, que é provocado pelo rebojo. Rebojo é um movimento de vai e vem imposto ao barco pela energia das ondas que, apesar de contidas nas proteções do Forte e do porto, ainda passa muito forte, especialmente, na maré alta. O TENAB fica em frente à Praça Visconde de Cayrú, onde está o cais citado por Jorge Amado.
Dia 23 de Junho, véspera de São João, acordei, como todos os dias, com a sequência de apitos vindos da Capitania dos Portos, anunciando a alvorada. Esses apitos, com diferentes ritmos e timbres, soam o dia inteiro anunciando as atividades e a presença de oficiais no Distrito Naval. Gostem ou não, é uma tradição que compõe o cenário do cais.
À tarde, estava apoiado no gradil do cais, olhando para o nada, quando se apresentou um dos funcionários do TENAB, declarou seu nome, perguntou de que veleiro eu era e, em seguida, passou 20 minutos me explicando porque, esse ano, ele não iria ao interior para comemorar São João; estava chateado, precisava dividir isso com alguém. São João, na Bahia, é um dia de festa, talvez tão importante quanto o Natal.
Ao lado do TENAB, tem um pequeno cais onde operam diversos barcos de transporte de pessoas para: Itaparica, Maragogipe, Morro de São Paulo, etc.. Os mais modernos, Catamarãs, transportam turistas, em sua maioria, para destinos mais distantes; e barcos mais simples, de madeira, pessoal local e cargas leves para Itaparica. O movimento foi intenso porque muitos soteropolitanos viajam para passar o São João no interior. Dependendo do destino, há uma economia de 200 km tomando o ônibus em Itaparica, evitando dar a volta na Baia de Todos os Santos, por terra.
Numa tarde de sexta-feira, vi sete saveiros chegarem, com suas velas coloridas. Não traziam farinha e frutas pois somente iriam participar de um filme, por isso tantos. Enquanto as cenas eram rodadas a bordo de um deles, os outros, com os panos em cima, faziam fundo, que, junto com barracas imitando uma feira livre, compunham o cenário.
No TENAB, veleiros estrangeiros são maioria, com seus capitães sempre reclamando da burocracia brasileira, como se nos EUA, ou na França, fosse diferente. Um Sul Africano me disse que aqui é ruim, mas no Caribe é muito pior. Há também barcos de pesca, lanchas da Capitania, dos práticos do porto, escunas e muitas canoas a remo. Todos os barcos ficam em poitas, ou atracados lado a lado, bem próximos a uma rampa, localizada ao lado da Capitania.
O entorno do Cais é lindo. O espaço total não é maior que meia milha quadrada, mas tudo funciona bem, barcos entram e saem a todo tempo, manobram com uma facilidade e precisão que dá inveja. Os primeiros motores são ligados meia hora antes dos apitos da alvorada, e os últimos barcos se aquietam às 21:00 horas.
Nos diferentes espaços à volta do TENAB, convivem: velejadores, turistas, comerciantes, pescadores, trabalhadores e miseráveis que, dormindo ao relento, em parte, nada mais são que fruto do descaso de uns poucos eleitos.
Gosto daqui, dessa ordem sem controle, da tradição e da harmonia, do sorriso e da agonia, da luz e do olhar de um povo que brinca e festeja a vida, por qualquer motivo.
Se puder, venha conhecer e viver um Cais muito diferente de qualquer marina. Aqui, no meio de veleiros de fora, onde mais se fala inglês, há um certo mistério no fim da tarde, onde se vê um baiano falando ao celular em um cais velho, tendo por fundo um antigo forte, um moderno catamarã, barcos mais antigos, uma réplica de caravela, navios e um daqueles saveiros velejando graciosamente em direção ao cais, para ficar “balouçando” tranquilamente.

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De Vitória a Salvador no Luthier

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Versão da Catarina

Barco abastecido de água, fomos ao supermercado, comprar alimentos e bebidas, para a viagem. No dia anterior, feriado do dia 11/06, não conseguimos quase nada; o comércio realmente fecha, em dia santo.
Acabei preparando uma carne com muitos legumes, pensando em balancear a proteína, e o carboidrato, e comemos um dia antes, para ver se a gororoba não ia fazer mal. Ainda deixei, à mão, umas sopas instantâneas, uma massa para lasanha, molho, e uns lanchinhos.
Checada a previsão, saímos no dia 13 de junho, às 15 horas, com destino a Salvador/BA, velejando com um vento de alheta maravilhoso, constante, de uns 15 a 20 nós, suficiente para levar-nos a 6 nós, com a ajuda de ondas vindas de sul.
Logo depois de passar o Porto de Tubarão, avistei um bichão cinza, vindo no través do barco, bem rente à água, que só podia ser um golfinho; indício de uma boa viagem, ou de nada, mesmo, só ele indo procurar sua turma.
Quanto ao mar, não teve jeito, a previsão já dizia que ia ser em torno de 2 metros, em média, e balançamos muito, principalmente depois de Abrolhos, quando as ondas vinham de leste. Foi difícil arranjar um jeito de tomar banho, que foi no cockpit, com aquele ventinho sul, gelado, soprando, mas achei tudo ótimo: a sensação de ficar ensebada é pior que o desconforto. Tudo ficou mais difícil: beber água, comer, esquentar a comida, mas assim saímos, balançando, e assim chegamos.
Eu nunca vi uma noite tão estrelada, tão linda, quanto na passagem por Abrolhos, acho que por estar longe de qualquer clarão das cidades. E que lindo ver a lua nascer no horizonte, uma bola alaranjada, à meia noite, subindo devagarzinho.
Tive certeza que estávamos no nordeste do país, quando um pescador pediu, pelo VHF, para que fossemos para o canal “dezoiTWO”. Logo depois ouvi, pelo FM, a rádio Ubatã, da cidade de mesmo nome, na Bahia, apresentada pelos médiuns videntes Mestre Jacob, e Dra. Janaína, se é que entendi direitinho, falando bem devagarzinho. Até então, no Espírito Santo, só tinha captado rádios religiosas católicas, na maioria, ou evangélicas.
O rádio AM/FM foi um companheirão, para mim, naqueles momentos em que você fica contando as ondas, e vai dando um soninho. Você escuta os vários tipos de música, regionais, pontos de vista diferentes, e notícias. E isso tudo a 20 milhas da costa!
Chegando perto de Salvador, deu para captar um programa noturno, com esclarecimento de dúvidas sobre sexo, por uma médica local, Dra. Gilda, e um outro muito semelhante, em um canal próximo; nada a ver com os do gênero, de São Paulo, aqui muito mais diretos, e informais; as doutoras parecem umas amigonas, dando conselhos. E cada pergunta! Assunto de grande relevância, por aqui.
A viagem transcorreu bem, com um pequeno incidente com o GPS, e outro com a escota da genoa, mas sempre tem que ter alguma emoção. E emoções não faltaram ao ver a minha chaleira voando para bombordo, com um onda mais forte que bateu no casco por boreste. Claro que ela não estava vazia, mas como água evapora, tudo bem. E se fosse uma panela com o rango? Ou se ela estivesse com água quente, vindo na minha direção? Ia chorar muito. É bom eu largar de ser besta, e prender as coisas direito!
Fiquei namorando, fortemente, a idéia de ter um microondas. E já estou casada com a de arrumar uns estofados para o cockpit, que mais parece, hoje, um chão de cimento gelado; e também uns protetores para o sofá da dinete, para a gente não cair com o balanço do mar. Coisas que fomos deixando para depois.
O Dorival mareou, mas conseguiu, desta vez, controlar a situação, e foi melhorando, a cada dia. Se fosse comigo, não sei se teria esse controle mental, e ia ficar muito chata, eu me conheço. Ainda não mareei, mas como sei que isso pode acontecer com todo mundo, a qualquer momento, não estou dando bobeira com a alimentação, e com o calor.
Os nossos turnos de vigília foram um desrespeito só: um ficava com dó de acordar o outro, e ia se aguentando, até que o outro acordasse sozinho. Assim não dá! Falta de organização!
Mas assim chegamos, à terra dos reis, às 22 horas, do dia 16 de junho de 2009, pedindo licença para singrar as águas da Baía de Todos os Santos, e cansados, mas muito contentes, satisfeitos por mais essa perna, que transformou em realidade, um sonho antigo. Isso é que é emoção!

Tenho certeza que, depois dessa, vamos juntos a qualquer lugar!

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Versão do Dorival

A decisão de ir direto para Salvador surgiu a partir de uma janela de previsão de tempo muito boa. Teríamos uns 3 dias de vento SE, e chegaríamos a Salvador com vento Leste. Ondas de 1,5/2 metros.
Preparei uma rota direta de Vitória para Salvador e, caso fosse necessário parar, programei alguns waypoints para Caravelas, Ilhéus e Camamu.
Dois pontos devem ser observados com cuidado nessa rota: o Canal de Abrolhos e o Banco Royal Charlotte. Saindo de Vitória, a rota que usamos passa por dois Waypoints no Canal de Abrolhos, um no início e outro no fim da rota recomendada na carta 1310 (Canal de Abrolhos e Proximidades). Depois, seguimos um rumo direto para Salvador, com um pequeno desvio próximo a Belmonte, para passar com segurança pelo Banco Royal Charlotte.
Saímos de Vitória às 15:00 hs do dia 13 de junho de 2009, logo após abastecer com diesel. Com a mestra no segundo rizo, motoramos um pouco até sair da proteção do Porto de Tubarão, onde abri a genoa e desliguei o motor. Com o vento de alheta (SE) de 16 nós rumamos para o Canal de Abrolhos, desenvolvendo velocidades entre 6 e 7 nós.
Logo que anoiteceu, avistei um barco de pesca que me pareceu ancorado. O nosso rumo o deixaria pelo nosso bombordo. Logo, ele chamou pelo rádio e avisou que estava com a rede dele, 1 milha de comprimento, lançada a 70º, com uma bóia em cada ponta, sinalizadas com piscas. Depois de alguns câmbios, até eu entender qual era a referência dos 70º que ele reportava, verifiquei que nosso rumo estava safo. Algumas horas mais tarde, avistei outro barco de pesca, desta vez, eu chamei pelo rádio perguntando se ele estava com o material na água, ele respondeu que não, seguido de várias formas diferentes de agradecimentos pela minha preocupação com o material dele. Não me lembro dessas gentilezas no sudeste.
Traduzindo: material é o conjunto de rede, bóias e sinalização luminosa; xº, lançado, é em relação ao norte magnético; a posição é reportada pelo valor cheio (arredondado) dos graus, primeiro a latitude e depois a longitude. Exemplo, se você estiver na Latitude 12º58’ S, e Longitude 38º 30’ W, chame o pesqueiro assim: Barco de pesca perto de 1338, aqui é o veleiro Luthier…
Às 07:30 hs do dia 14, reduzi a área da genoa mantendo a velocidade de 7 nós. O vento subiu para 25 nós SE e as ondas eram de popa, 2 metros, 8 segundos, vindas de S.
Chegamos no primeiro Waypoint, da rota do canal de Abrolhos, às 18:30 do dia 14, com ondas de 2 metros e período de 6 segundos. O Vento continuava SE. Enrolei a genoa completamente, reduzindo a velocidade para 5 nós, com medo de colisão com alguma baleia, e liguei o motor para, com o barulho, acordar alguma que estivesse nas proximidades. A passagem pelo canal de Abrolhos durou seis horas. Logo depois, desliguei o motor e abri a genoa, e, sem ter visto baleia, rumamos a 6,5 nós, direto para Salvador.
Às 7:30 hs do dia 15, o vento reduziu para menos de 10 nós, então, liguei o motor para manter a velocidade acima de 6 nós. Logo em seguida, o vento mudou e ficamos em popa rasa, o que me obrigou a reduzir a genoa para estabilizá-la. Às 10:30 hs, o vento voltou a aumentar, então, desliguei o motor, e abri a genoa. Seguimos a 6,5 nós, com vento de alheta. Nessa hora, percebi que, enquanto a genoa estava reduzida e usava o motor, o cabo da contra-escota ficou roçando na escota da genoa, provocando desgaste.
A viagem seguiu sem problemas e fomos observando Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Santo André passarem. As ondas começaram a mudar de direção, passando a vir de leste, e o vento também. Desta vez, a previsão foi certeira.
Logo depois de passarmos pelo Banco Royal Charlotte, fui alertado pelo alarme do piloto automático que ele tinha desligado, por uma falha de dados do GPS. Como estávamos com vento de alheta, quase popa rasa, o barco girou 180º e aquartelou as velas, parando completamente (o motor estava desligado). A contra-escota funcionou perfeitamente. Tudo ocorreu lentamente, sem qualquer adernada violenta, só uma sensação de pisada no freio porque estávamos a mais de 6 nós.
Folguei as escotas da genoa e ajustei o rumo, com isso a mestra se acertou, mas, infelizmente, a escota de boreste da genoa se enroscou no bote, que estava preso logo avante do mastro. A falha de dados do GPS sumiu, sem que eu pudesse saber o que ocorreu, permitindo ativar novamente o piloto automático.
Fiz várias tentativas para livrar a escota da genoa, mas só consegui enrolar a genoa até que ficasse um pequeno triangulo. Enquanto isso, o vento de leste foi diminuindo para uns 8 nós, e estávamos com ondas diretamente na lateral do barco. As ondas não eram altas, a maioria com 1,5 metros, mas algumas, com intervalo de 5 a 15 minutos, vinham com mais de 2 metros, em grupo de 3 ou 4, balançando bastante.
Liguei o motor, e percebi que, com velocidade de 6,5 nós, a navegação ficava mais confortável, mas não o suficiente para que eu tivesse coragem para ir até o mastro abrir toda a mestra, e livrar a escota da genoa do enrosco, para poder andar a mais de 6 nós, sem motor.
Assim, viemos até Salvador com a mestra no segundo rizo, 50% de genoa, e motor a 2000 giros.
Chegamos no TENAB (Terminal Náutico da Bahia) às 22:00 hs do dia 16 de junho de 2009. Chamamos pelo rádio e ninguém respondeu, então, peguei uma poita para ir de bote ver onde iríamos atracar o Luthier. A Catarina não queria que eu fosse, achava que podíamos ficar ali mesmo e tratar com a marina no dia seguinte. Teimoso, e com medo de ser acordado na madrugada para sair dali, fui até a marina. O guarda estava desesperado para me avisar que eu saísse dali, porque a poita era de um barco a serviço da Capitania dos Portos, e estava para chegar. Eu não sabia, a Capitania fica em frente à poita, ao lado do TENAB.
Navegamos 471 milhas, em 78 horas, velocidade média de 6 nós, 30 horas com ajuda do motor, porque nas 6 horas que gastamos para passar por Abrolhos o motor estava ligado mas desengatado.
No dia seguinte, foi só lavar o convés, aduchar os cabos, e o Luthier estava como saiu de Vitória, nada quebrou.
Mareei, mas, desta vez, consegui lidar melhor com isso.
Ficaremos um tempo em Salvador, haverá o que relatar. Aguardem.

Próximo a Ilheus

Salvador

Vitória no Luthier

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Versão da Catarina

Em Vitória, resolvemos tirar uns dias de descanso, até que o vento nordeste parasse de soprar, e o mar baixasse, lá fora. Então, fomos bater perna no bairro do contorno do Iate Clube, e visitar o Shopping Vitória, tudo a pé, para andar um pouco, movimentar o esqueleto e eliminar toxinas. Bom que, no Shopping, deu para encontrar uns gorros, bem macios, que fizeram falta na última perna, por conta do vento gelado no ouvido.

Vitória mais parece uma cidade de negócios, e não de turismo, com muitas pessoas vestindo terno e gravata, e lojas de grife, acho que pelo movimento gerado pelos portos, pela Vale, e as atividades da Petrobrás. Pelo menos aqui, ninguém veio oferecer passeio de barco, lembrancinhas, ou perguntou se eu falava português; talvez pelo tipo físico dos moradores, com muita descendência de poloneses, alemães, holandeses, e outros povos do norte europeu, como explicou um cabeleireiro-historiador, onde eu fui cortar o cabelo, e, confirmado pela minha mãe, professora aposentada.

Como em toda cidade grande, há notícias de violência, pelo rádio e TV, e na Avenida do Shopping Vitória, por volta das 15 horas de um dia de semana, o Dorival viu um movimento de pivetes arrumando uma arma antes de entrar em um ônibus, e várias pessoas que também viram se afastaram, por conta disso. Vai saber o que aconteceu, depois… Não tinha reparado na movimentação; preciso ser mais navegadora, nessas horas.

Tem muitos mineirinhos, uai, franguinho ao molho, com quiabo e polenta, nos restaurantes, e gente com aquela fala cantada. Dizem que eles invadem a cidade, na alta temporada.

Também fomos, a pé, ao centro da cidade, para comprar uns componentes eletrônicos, e aí a paisagem que vimos foi outra: as calçadas se estreitando, as ruas ficando cinzas, sujas, sem arborização, e então, apareceu o esgoto, a céu aberto, e com eclusa, para a porcaria não voltar, com a maré cheia. Enfim, saímos da “Beverly Hills”, de Vitória, para a realidade brasileira.

No Iate Clube, vimos o resgate de uma tartaruga, pelo Tamar. Ela estava muito magrinha, e a técnica informou que, provavelmente, não teria jeito, porque se deixou capturar muito fácil. A origem do mal poderia ser a ingestão de plástico. É de cortar o coração.

Bom, já que eu tinha que aguardar a condição de tempo, para seguir viagem, e esperar por uma das únicas duas vagas no píer, ocupadas por uns gringos, para poder lavar e abastecer o barco, não pude deixar de reparar na fala do funcionário da loja náutica da marina. O Dorival perguntou se ele tinha uma peça, e ele respondeu: “Tenho, não”. E depois, um outro cara ao lado comentou, sobre o próprio resfriado: “Tô gostando disso, não”. Fiquei em dúvida: afinal, o cara tem, ou não tem, a peça? E o outro, está gostando, mesmo, do resfriado?

Porque um sujeito fala que tem, para depois negar? Acho que gera uma expectativa, que é frustrada. Em São Paulo, ninguém fala, “Vou sair na sexta-feira, NÃO”. Se vai sair, sai de uma vez.

Fato é que, eles se entendem desse jeito, que bem pode ser o certo, porque o português é uma língua muito rica. Até parece que eu não tenho mais nada, de útil, para fazer. Prometo parar de ficar reparando na fala dos outros, NÃO.

Alguns dias depois, o gringo resolveu desocupar a vaga do píer, que era para ser usada por, no máximo, 2 dias, mas, sabe como é, ele ficou 6; tivemos que pedir para darem um jeito, porque já estava pintando uma previsão de tempo boa para nós.

Conseguimos, então, lavar o barco, que ficou sujo meia hora depois, do minério de ferro soprado do porto, mas deu para melhorar o estado geral de imundície, em que ele se encontrava, e principalmente, pudemos lavar os painéis solares, que já estavam com o rendimento comprometido. É o progresso!

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Versão do Dorival

O Iate Clube do Espírito Santo fica localizado na Praia do Canto, um bairro residencial de alto nível, com comércio sofisticado e muitos restaurantes, que animam uma vida noturna gastronômica muito intensa, e cara. Aliás, em búzios paguei R$ 4,50 por vinte litros de água mineral, e em Vitória paguei R$ 7,90. Os moradores dos prédios levam seus cachorros para caminhadas e, conseqüentemente, para perambular pelo bairro, tem que ficar olhando para o chão.

Não sou do tipo que acha que brasileiro não tem jeito, muita gente recolhe a sujeira dos animais, separa lixo reciclável, mantém a rua limpa, etc… O problema é que, os que não fazem isso, provocam um tremendo estrago.

No ICES, ficamos ancorados pela proa e atracados a duas poitas pela popa, lado a lado com diversos barcos, em uma piscina delimitada por um cais ativo, e um interditado. Ao nosso lado tinha uma lancha de pesca de 51 pés, e, depois dela, dois barcos italianos. Uma manhã, sai rápido do Luthier para ver o que estava acontecendo: eram os dois italianos falando alto, com os braços agitados para cima, apenas comentando um problema que um deles tinha com o motor; parecia uma briga.

Lanchas de pesca e veleiros não se entendem bem, no cais do clube eles são claramente separados, e, na “piscina”, com o entra e sai de veleiros visitantes, ficam misturados. Todos os veleiros usavam âncora com corrente, e todas as lanchas cabos, com alguns metros de corrente, e, acreditem, o cabo era flutuante. Todas as vezes, todas mesmo, que as lanchas saíram, algum enrosco entre as âncoras deles, e as dos veleiros, aconteceu. Só comigo foram duas vezes, e, claro, quando saí o cabo de uma delas estava cruzando com a minha corrente.

Um dos italianos ficou nos observando muito tempo, e dessa vez, ao invés de tomar a iniciativa, fiquei esperando para ver no que dava. Um dia, quando a lancha que estava entre nós começou a encostar o guarda mancebo no estai de proa do veleiro do italiano, resolvi colocar uma das minhas defensas, para proteger o barco dele. Quando ele acordou e viu, ficou agradecido, e começamos a conversar. O veleiro dele é de madeira, anos 70, e está muito bem conservado. O que mais me chamou atenção foi que ele estava com um medo incrível do Cabo de São Tomé; acho que o pessoal de Salvador exagerou bastante na dose, para mim, não foi fácil passar por lá, mas não deve ter nada a ver com o Cabo Horn.

De Búzios a Vitória no Luthier

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Versão da Catarina

Saímos às 5 horas da manhã do dia 01/06, já com o barco balançando, recebendo aquelas ondas de lado. Algum tempo depois, ligamos o motor para ajudar, com o inconveniente do cheiro do diesel, pois o vento estava meio de popa (por alheta). Algumas horas depois, o Dorival já estava mareado, então, praticamente só eu me alimentei naquele dia, com a comida que tinha preparado no dia anterior (arroz à grega e picadinho de carne); até esquentei para o Dorival, mas ele virou a cara. Depois disso, ele só foi piorando, e vomitando, e mareando… Resultado, dobrei meus horários de turno, para ele poder se recuperar, e nem deu tempo de esquentar mais comida nenhuma, jantei uma maçã, e levei um pacote de bolacha água e sal para o cockpit, e assim passei a noite.
À noite choveu bastante, eu fiquei um bom tempo no cockpit, preocupada com os espinhéis, para cortar o motor, se precisasse, mas depois de ficar um tempo assim, não aguentei mais, e desci, só via o radar, e olhava lá fora pelo dodge, a cada dez minuto. Acho que entreguei a Deus.
O Dorival ainda conseguiu fazer a parte dele, desviar de barcos, baixar a mestra, quando precisou (eu ainda não sei fazer isso, viche!), passar instruções, afinal, em terra de cegos, ele é o caolho-capitão, sabe mais que eu, que sou só arraes.
E chegando aqui, o bote se soltou (alguém deu bobeira, claro), ele ainda teve que pular na água, de cuecas, para buscar lá longe.
Bom, estamos vendo alternativas para a próxima vez, parece que existem uns remédios mais modernos, e uns selos de colocar na pele. Passada a esfrega, ele já está fazendo planos para a próxima perna, este troço é um vício!
Depois da terceira perna, estou achando que não vamos pegar mar liso para subir. Não sei porque…  Com tudo isso, acho que minha vida está melhor que atrás de um computador, fazendo serviços para os outros, sobre coisas que não acredito. Abriu-se uma janela de coisas novas, e diferentes, que eu quero explorar. E o mar não é mais duro conosco, do que a vida foi para nós. Fora que, no mar, você está longe de todos os tubarões da civilização: a ambição, a cobiça, a miséria humana em todas as suas faces. Temos que respeitar a natureza, aprender com ela, só isso, o que não é fácil. Ou somos mesmo masoquistas, e não estamos percebendo.
A conexão está caindo. Depois falo mais besteira. Bom dia!

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Versão do Dorival

Búzios é uma cidade de contrastes. A despeito das lojas da Rua das Pedras, caríssimas, R$ 3,30 o café expresso, e R$ 50,00 o kg do sorvete, que não é pra qualquer um, existe uma atividade de pesca artesanal muito intensa. Os pequenos barcos saem no fim da tarde, tripulados tipicamente por três pescadores, e chegam no raiar do dia. É bom vê-los chegando com seus barcos pesados, quase entrando água pelos bordos e popa. Também há pescadores solitários, com suas redes em canoas a remo.
Logo que os pescadores chegam, iniciam a rotina de passar a rede da popa para a proa, retirando os peixes, e, em seguida, enquanto um separa os peixes de valor comercial, os outros dois arrumam o equipamento para o dia seguinte. Reparei que o descarte do pescado que não interessa sempre é feito por bombordo, quando, muito atentas e ordenadas, gaivotas aproveitam tudo o que é jogado fora.
Na cidade, há um sistema de transporte com peruas e vans, que funciona bem por R$ 2,00, por pessoa. Passa uma a cada 3 minutos. Tomamos uma dessas, e fomos até um supermercado em Manguinhos, bem servido e limpo, onde pudemos comprar alimentos, a preços justos.
Saímos de Búzios no dia 01 de junho, às 5:00 hs da manhã, com destino à Vitória, velejando com um vento SSW, de 20 nós. Com a mestra no segundo riso, e a genoa enrolada para 100% (toda aberta é 130%), navegamos a 6,5 nós, por 2 horas. As ondas vinham de S, com dois metros, e período de 12 segundos. Nosso rumo até o Cabo de São Tomé era NE. O vento, quase popa rasa, e as ondas de alheta, fazem o barco balançar, mas, com período de 12 segundos, é bastante aceitável.
Às 7:00 hs, o vento baixou para 10 nós, e ficou em popa rasa; com o balanço das ondas de S, a genoa não se acomoda, e não é razoável armar asa de pombo. Enrolei a genoa, e liguei o motor, para manter a velocidade superior a 6 nós. Nessa condição, fomos até o Cabo de São Tomé, só que, com as ondas aumentando para em torno de 2,5 metros, com 8 segundos de período. Comecei a enjoar.
Chegamos ao Waypoint marcado, situado há 5 milhas, afastado do Cabeço de Fora, do Cabo de São Tomé, às 17 hs, com ondas de S, de 3 metros, e período de 5 segundos, combinadas com ondas que vinham de W, com igual período. Esse mar desencontrado começou a aparecer umas 20 milhas antes. Mudamos o rumo direto para Vitória, o que nos deixou em melhor condição, porque as ondas passaram de alheta, para popa, e diminuíram para uns 2 metros, logo umas 10 milhas depois. Perdi a conta de quantas vezes vomitei.
Esse mar nos acompanhou até Vitória. Às 22:00 hs, começou a chover e ouvi pela primeira vez a Estação Costeira da Embratel – Vitória Rádio, canal 16 – VHF, informando o desaparecimento de uma embarcação de pesca, com 4 pessoas a bordo, desde o dia 25. Passamos a observar com mais atenção, procurando por eles. A chuva reduziu a visibilidade para 100 metros, no máximo. O radar nessa hora ajudou bastante. Ajustei o ganho e o filtro de chuva, e deixei no automático, para a Catarina poder vigiar. Nessa hora, eu já estava tão ruim, que não conseguia fixar a vista na tela do radar.
À meia noite, o vento começou a rondar muito, passando pela popa. Depois da contra escota atuar algumas vezes, impedindo o “gibe”, e de tentativas de mudança de bordo da vela não resolverem, decidi baixar a mestra, e ficar só com o motor. Logo cedo, ouvimos pela CBN-AM-RJ, notícias da queda do Avião da Air France; gostei de estar a bordo de um veleiro.
Pela manhã, avistei um pesqueiro roda a roda, fui observando, até que, quando estava a uns 200 metros de distância, resolvi manobrar para boreste; em seguida, ele fez a mesma coisa, e passamos a uns 60 metros, um do outro. Da próxima vez, vou manobrar bem antes.
Chegamos no Iate Clube do Espírito Santo, em Vitória, com mar de ressaca, campeonato de pesca cancelado, e muita gente perguntando do mar.
Parece uma estória de horror, mas horror mesmo foi marear. O Barco se comportou muito bem e, ao chegar, bastou arrumar os cabos, e ele estava como saiu de Búzios, mas com sal no convés. Adoro ver os porões secos, e tudo no lugar, depois de 30 horas, para vencer 185 milhas, o que deu uma média de pouco mais de 6 nós.
Para coroar, tem aquelas coisas que fazemos automaticamente, tipo trocar a marcha do carro. Pois é, de vez em quando, damos uma mancada e a marcha não entra, arranhando. Então, quando chegamos, ancoramos e fomos até a sede do clube. Quando voltamos, amarrei o cabo do bote no guarda mancebo, com um lais de guia. Faço esses nós automaticamente, mas, como não verifiquei, e nós mal feitos não arranham como o câmbio do carro, quando vi, o bote estava à deriva, a uns 100 metros afastado do barco. Tirei a roupa, e, de cuecas, nadei até o bote. Claro que a chave do motor não estava lá. Remei arfando, contra um vento de 15 nós.
A previsão de ventos foi correta, mas as ondas estavam mais altas, ou, talvez, eu esteja avaliando errado a altura. O período das ondas estava menor, e medir o período das ondas, eu tenho certeza que sei. Não fosse marear, a viagem teria sido boa.

Catarina em Vitória

Do Rio a Búzios no Luthier

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Versão da Catarina

Chegamos em Búzios no dia, 18/05/09, por volta das 13 horas, e estavamos bastante cansados. A navegação foi muito boa até a saída da Baía da Guanabara,  e um pouco mais lá fora, com um vento sul, velejamos a uma média de 5,5 nós; depois entrou o leste, de uns 25 nós, não preciso dizer nada, né?
O mar ficou batido, e pegamos chuva forte no trajeto. Também tinha muito pescadores ao largo, que acendiam as luzes só em cima da hora. Perto do Cabo Frio veio o mar mais chato, com ondas mais altas, e desencontradas.
Resultado: o Dorival enjoôu bastante, vomitou algumas vezes. Dei Stugeron para ele e não adiantou nada. Mas ele conseguiu ter controle do barco quando precisou, nos turnos. Agora ele está dormindo. O que se faz para não enjoar?
Foi lasqueira, mas não posso reclamar, porque o motor não deu chabú, quando precisamos dele, e estamos bem, então, considero que fizemos uma boa viagem cansativa. E o lugar é lindo, que cor de mar!!!
Pegamos os serviços dos garotos Pierre e André, do Iate Clube Armação de Búzios, para trazer diesel e água. Eles são bastante profissionais, apesar de novos, trazem nota da compra, transbordam o diesel, etc…. Ralam o dia inteiro na marina, reformando os barcos de apoio do clube, e o serviço é bom. Como tudo em Angra, o preço é mais alto (saiu R$40,00), mas é um conforto, para quem não tem carro, e estamos adotando como regra pegar algum serviço do local, para ficar um ambiente melhor.
Deixei para fazer o varejão (ou horti-fruti, como falam aqui) hoje; vamos ver se eles vão me entender, ou se vai ser uma conversa de maluco. Lá em Niterói, pedi coxão duro no Açougue, e eles não entenderam; claro, o nome atual é ponta de alcatra, pensei, e continuaram não sabendo o que era. Pedi para ver as carnes, falei que era uma de fibra longa, para fazer de panela, então eles disseram que eu queria o lagarto, eu falei que não, aí me ofereceram "chan", que até hoje não sei o que é. Lógico que eles concluiram que eu era de fora, e na lata, perguntaram se eu estava no Charitas. Bom, aqui tem lagarto redondo, e lagarto plano, que é o coxão duro. Os outros nomes, ainda não sei…
No Rio, já vi que encanador é bombeiro, e favela é comunidade, além de usarem o "safo" para tudo, não só em náutica. Tem mais uma: mandioquinha é "batata salsa", pelo menos em Paraty, e o cuscus em Niterói não é salgado, é doce, feito com tapioca e coco.
Não tenho visto o pessoal daqui falar "Olha só", para comecar uma frase, eles tem usado muito o "Agora", como se fosse ter alguma coisa imediata para acontecer; melhor que o nosso "O meu", da Mooca.
Vou parar de pegar no pé do jeito de falar de todo mundo, quero mesmo é entrar numa feira na Bahia, não saber nome de fruta nenhuma, e provar todas.
Continuamos por aqui, esperando a condição adequada de mar e vento. A água é gelada mesmo, hoje está um pouquinho mais quente, 24ºC, teve até fog de manhã, e está cheia de águas vivas; meus paióis de alimentos ficam fresquinhos.
Por hoje é só!

 

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Versão do Dorival

Saímos do Rio de Janeiro às 14 horas, com vento Sul de 15 nós, passamos por fora da Ilha do Pai, e então tomamos um rumo direto para um Waypoint que marquei, a 3 milhas de distância do Focinho do Cabo, em Cabo Frio.
Essa rota se mostrou muito interessante porque os navios passavam mais abertos umas duas milhas de nós, e, os barcos de pesca grandes, a maioria a uma milha mais abertos (mar a dentro). Os barcos de pesca pequenos estavam entre nós e a costa. Não tivemos que fazer nenhuma manobra. O tráfego de navios era intenso, a todo momento avistávamos pelo menos um deles, e os barcos de pesca grandes eram avistados em grande quantidade.
Vi no radar que tinha um objeto com rumo paralelo ao meu, com 3 vezes a velocidade, só podia ser um barco em rumo inverso com duas vezes a minha velocidade. A distância entre os rumos dava 1/4 de milha, mas não via nada lá fora. De repente, avistei um vulto na posição indicada pelo radar (não havia perigo de colisão), quando ele passou paralelo a mim, acendeu as luzes de navegação e cruzeta e um farol potente na minha direção, estava bem na posição mostrada no radar. Piscou esse farol algumas vezes, depois se apagou e foi embora. Aconteceu a mesma coisa, com outro pesqueiro, mas estava mais distante. No terceiro, assim que ele acendeu o farol, também acendi um farol na direção dele. Ele se apagou imediatamente e foi embora.
Velejamos com a mestra no segundo rizo e toda a genoa, fomos inicialmente a 5,5 nós, e depois caindo para 4 nós quando anoiteceu e às 22 horas o vento acabou. O mar tinha ondas de 1 a 1,5 metros com período de 9 segundos, vindas de SE. Ligamos o motor e fomos bem até meia noite quando entrou um Leste de 25 nós, que levantou um mar muito desencontrado, com as ondas longas vindas de SE sobrepostas com ondas de Leste com período pequeno. O mar foi piorando e o vento continuou firme, até que, no Waypoint de Cabo Frio, a coisa estava bem feia, enjoei bastante, e tivemos que baixar a velocidade para 3 nós para reduzir os caturros.
Balançávamos tanto que pela primeira vez com o Luthier decidi fechar todos os registros, exceto o do motor. Sem genoa e com motor, percebi que era possível ajustar a escota da mestra (no segundo rizo o tempo todo), para reduzir os balanços, o vento estava com 10 graus da proa por boreste.
Depois que dobramos Cabo frio a coisa começou a melhorar, e , com a mudança do rumo, deu para velejar por uma hora, quando o vento desligou e o mar também, e viemos numa piscina até Búzios, vai entender essa. Chegamos às 12:30 de segunda feira.
Pela previsão do tempo que eu peguei no Buoyweather e Surfguru, eu sabia que ia ter mar de SE de 1 a 1,5 e chegando a 2 no Cabo Frio, e vento de S até às 3 hora da manhã da segunda feira ,e vento SE fraco de 4 nós depois. Contava com usar o motor depois da meia noite. Não contava com vento Leste de 25 nós, pois não vi isso na previsão. Também tivemos chuva forte por períodos pequenos de 30 minutos, duas vezes.
As três horas que levamos para dobrar o Cabo Frio foram de lascar.
O bom é que nada no barco se quebrou, segundo rizo na mestra se mostrou bom e prudente, e não tivemos nenhum tipo de desgaste nas velas e ferragens.
Na noite passada, aqui em Búzios, às 19 horas iniciou um vento Leste que foi aumentando para 15 nós até às 2 horas da manhã, depois simplesmente parou. Esse vento não estava nas previsões.
Resumindo, estou tomando o maior olé das previsões do tempo.
Hoje, já lavamos o sal do convés e fomos passear na cidade. Muito bom. O mar está transparente, dá para ver a poita a 6 metros de profundidade. A marina Iate Clube Armação dos Búzios cobra R$50,00 por dia na Poita, mas te dá o mesmo valor em crédito para consumo no restaurante deles, por até 7 dias, o que dá para dois almoços de filé com fritas, arroz e feijão e dois refrigerantes.
Para seguir até Vitória, preciso acertar melhor na previsão do tempo porque sei que, dobrar o Cabo de São Tomé sem um vento sul é muito difícil.
Se não der certo, eu volto para Búzios, já ouvi muitas histórias a respeito por aqui, e prometo só xingar os sites de meteorologia…

De Angra ao Rio no Luthier

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Versão da Catarina

Chegamos no Abraão no dia , 30/04/09, à tarde depois de uma velejada bem gostosa, de alheta, a uns 5,5 nós de vento, em média. Saimos bem cedinho, para passar no Piratas,  e fazer compra de supermercado. Aquele pier é um conforto só, compensa o supermercado ser um pouco mais caro, quer dizer, tem um serviço bom em troca. E deu para comprar frutas secas, e castanhas, por um preço bom, além de frutas e verduras frescas, e carne, de boa qualidade, mas os produtos de limpeza e perfumaria deixei para comprar no Rio, que deve ter preço melhor.
Hoje o mar me pareceu mais azul, e o pôr do sol no Abrão estava uma coisa de louco, com vários tons de laranja e azul. Bom viver para ver isso…
Começamos um novo ciclo.
Vamos consultar todos os "gurus" do tempo, e escolher a provável data da saída para o Rio. Avisamos quando for.

Dia: 05/05/09; Chegamos ontem à noite no Charitas. No meio da viagem pegamos um vento leste na cara, e um mar meio chato, mas fizemos uma boa viagem.
Não deu para ver a beleza da entrada da Baía da Guanabara; aliás, só víamos umas ondas na popa, e uns cavados pela proa, que ultrapassavam a altura do bimini. Não vai faltar oportunidade…
A água aqui em Niterói é cor de coca-cola, mas o clube parece bem arrumadinho, talvez dê até para nadar na piscina, na falta de mar para isso. Hoje estamos na correria para lavar o barco do sal e terminar os últimos detalhes  para seguirmos viagem.
E bons ventos, com mar liso.

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Versão do Dorival

Tem uma hora que todo cruzeirista é igual, independente do barco que tem, da quantidade de tripulantes, e da vontade de partir: ficará à espera de uma boa previsão de vento e ondas, que seja adequada para levá-lo ao destino planejado. Nossa espera foi na Enseada de Abraão, na Ilha Grande.
Saímos no dia 4 de maio, às 4:00 hs local, com destino à nossa primeira parada, Niterói-RJ. A previsão era de vento SW, com 12 a 15 nós, e ondas de 1,5/2,0 metros de S, com período de 12 segundos.
Esperávamos chegar em Niterói às 16:00 hs. Fomos velejando com o vento SW até o través da Laje da Marambaia. No início, o vento era um pouco mais forte (+/- 20 nós), e as ondas estavam conforme previsto. Logo depois da Laje, o vento diminuiu e começou a rondar, até se transformar em um vento Leste de 25 nós, que nos obrigou a motorar o resto da viagem.
Esse vento leste levantou ondas de período curto, que obrigaram a redução da velocidade para diminuir os caturros. Chegamos no Clube Naval Charitas às 20:30 hs, não por causa do vento, mas porque entrava ar no filtro de água salgada da refrigeração do motor que nos obrigou a parar a cada 15 minutos para retirará-lo.
Fomos bem recebidos no Clube Naval Charitas, bem organizado, com boas instalações de banheiros e restaurante. Também é bem localizado, perto das novas balsas (que fazem marolas no local), de ponto de ônibus (em frente), e do comércio local.
Pudemos fazer boas compras em Niterói, no Supermercado Carrefour, e no Shopping Plaza, ambos no centro da cidade. Perto do Clube Naval há um bairro com boas opções de padaria, açougue, e hortifrutis, chamado São Francisco.
Destaque negativo para a poluição da Baía de Guanabara, o que é uma pena.
Em Niterói, mudamos a instalação do filtro para perto do registro de entrada de água salgada, de tal forma que ele ficou abaixo da linha d’água.
Compramos muitas cartas náuticas na DHN. Quando pedimos informações de como chegar na DHN, nos disseram para pegar a linha 33, descer depois do túnel, pegar a 31, etc.. Quando fomos ao Carrefour, um ponto antes do final da linha 33, percebemos que estávamos perto da ponta onde fica a DHN, bingo, a entrada da base da Marinha, não fica há mais de 150 metros do ponto do Carrefour. Andar 150 metros para o povo de Niterói é muito!

Velejando em Paraty      Luthier ancorado em Paraty

Há justiça possível?

O amigo Abel Aguilar foi assassinato estúpidamente em um assalto na Ilha de Itaparica culminando uma série de eventos violentos que vem acontecendo naquele local.

Quando cheguei em Salvador em julho do ano passado me assustei com os inúmeros relatos de furtos e invasões a embarcações e passei a dormir com o Yahgan trancado, o que nunca tinha acontecido. Claro que Salvador somente repete a violência que já vem acontecendo em todas as grandes cidades brasileiras, e não acho que eu tenha competência para discutir as causas desses males.

Mas eu tenho a convicção de que não há justiça possível num caso como esse. Nada do que se fizer agora compensará a vida que se foi, as vidas que foram transformadas (inclusive a minha) e a imensa dor da perda.

A comunidade náutica está (também) de luto. Vamos lembrar do nosso amigo pelo privilégio de o ter conhecido.

 

Veja também:

http://maracatublog.wordpress.com/

http://pintandoosetti.wordpress.com/

Cadê a aventura?

A travessia Camamu >> Sto André de 160 milhas foi realizada com ventos de popa "violentos" de 12 nós, ondas de 20 metros, digo, centímetros, sol e céu estrelado. As refeições foram feitas na mesa do cockpit na sombra de um pequeno toldo. Praticamente não cruzamos com nenhuma embarcação (pelo menos eu não vi !). O Yahgan fez inicialmente uma média de quase 7 nós e tivemos que diminuir muito as velas para chegar ao amanhecer em Sto André. Na barra, com auxílio do prático Carlindo, entramos tranquilamente na maré baixa, raspando no fundo de areia. Ancoramos sem hesitar com duas âncoras (uma pela popa outra pela proa) no sentido da correnteza do canal.

Bem, é certo que esta descrição de viagem não venderia nenhum livro nem renderia artigos em revistas especializadas. Os leitores gostam de aventuras, relatos heróicos acompanhados de muito sofrimento. Não foi o caso, e dificilmente será. Estou cada vez mais convencido de que não precisamos dessas experiências trágicas em nosso curriculum náutico para nos tornarmos melhores marinheiros.

A volta

Depois de mais de 5 meses perambulando pela baía de Todos os Santos e suas inúmeras atrações, uns kilos mais pesados por conta dos acarajés da Regina e do sorvete da Ribeira, iniciamos (agora João e Christina tripulando o Yahgan) a lenta viagem de retôrno a Angra dos Reis.

Camamu, 70 milhas ao sul de Salvador foi a primeira parada no dia 01 de janeiro de 2009. A curta travessia foi feita com vento nordeste fraco e a ajuda do motor e a chegada programada ainda com a maré enchendo para evitar a conhecida turbulência na barra de Camamu quando a correnteza da vazante se opôe ao vento e mar.

O nosso plano é descer lentamente a costa no rumo do sul, aproveitando o verão que é a melhor época para se explorar o sul da Bahia, parando em Sto André, Abrolhos, Coroa Vermelha, Búzios e Arraial do Cabo.

Camamu é a terceira maior baía do Brasil e tal como a baía de Todos os Santos, tem uma enorme área com baixas profundidades que limitam o acesso a quem carrega um peso "morto" de duas toneladas embaixo do casco que confere ao Yahgan um calado de 2 metros dos grandes. Ainda assim há inúmeras atrações por aqui sendo a melhor delas, na minha opinião, a cachoeira de Veneza que desemboca uma enorme quantidade de água diretamente em um braço de mar.

Estamos agora ancorados na localidade de Taipus de Dentro na lat 13° 56′ .85 Sul e long 38° 59′ .67 Oeste, na margem voltada para a península de Maraú.

Dá um agradinho

A frase ouvida numa das ruas do centro de Salvador não deixa de ser original apesar de mostrar uma face triste da metrópole super povoada, que atrai cada vez mais pessoas que se dedicam ao sub-emprego, aos pequenos delitos, ao comércio ambulante. Nada diferente de outras cidades grandes do Brasil como o Rio de Janeiro, São Paulo, Recife ou Belo Horizonte. Mas São Salvador tem seu lado muito pitoresco e peculiar. Não estou falando da Salvador moderna da Pituba, Barra, Praia Vermelha. Esses bairros para onde a classe média alta se refugiou em condomínios são bonitos e pasteurizados. Refiro-me a Salvador antiga. Andando pelas ruas do centro, da cidade baixa, do Pelourinho, da Barroquinha, da Baixa do Sapateiro, Politeama, Calçada, Água de Meninos, Ribeira, bairros onde se encontra o típico soteropolitano e tudo que Salvador tem de melhor (e pior também).

Gosto de andar a pé por essas ruas, perscrutando as conversas, observando os hábitos, anotando os termos diferentes. Como o Hotel Por Hora, o Hotel Modelo (que tem uma freguesia profissional), o anúncio do supermercado vendendo "Carne Chupa Molho", o bolo de carimã, de tapioca (que só se encontra por aqui), o bolinho de estudante (que nunca consegui entender porque o chamam desse jeito), o cartaz no bar Cravinho que adverte: "é proibido vomitar no banheiro".

Bem a propósito estou lendo o livro de Ana Maria Gonçalves "Um defeito de cor": a Salvador do início do século 19 retratada no livro ainda se parece muito com a atual. Muitos governantes acham que progredir é se parecer com outros centros mais desenvolvidos o que eu acho uma enorme bobagem. Progredir é criar as condições necessárias para que as pessoas tomem o seu próprio rumo e façam as suas escolhas através da educação, do saneamento básico, da saúde preventiva.

Sempre acabaremos chegando aonde nos esperam

O cruzeiro ao nordeste sofreu uma interrupção temporária. Parado com o barco em Salvador, no dia que havia planejado iniciar a subida para Recife, um apelo inadiável me fez decidir retornar ao Rio de avião, adiando a continuidade da viagem.

Não estou contrariado nem chateado com esta mudança. As praias e ilhas continuarão nos mesmos lugares, prontos para serem visitados. Uma das primeiras (e principais) lições que aprendi no mar foi o exercício da flexibilidade. Uma outra, mais recente, e que uso agora para complementar o título, é a de que somos indispensáveis aonde nos esperam.

Nota: a frase-título é do novo livro de José Saramago

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