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Luthier – Em Suape

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Versão da Catarina

A previsão de mar para a saída de Cabedelo, no dia 03/11, não era das melhores, com ondas de 2,5 metros, picos de 3 metros, com 14 segundos, mas não chegava a ser perigosa. Pesou na nossa decisão de sair o compromisso que temos em Salvador, em novembro, e o desejo de, antes, conhecer Suape, em Pernambuco.
O desconforto do vento e mar de proa, para abrir algumas milhas da Costa, e para vencer o Cabo Branco, se fizeram sentir logo nas primeiras 4 horas de navegação, com toda a tripulação enjoada. Nada a reclamar, sabíamos da bordoada.
Na chegada a Suape, no início da manhã do dia seguinte, já próximo ao Cabo de Santo Agostinho, outra pauleira, com o mar alto, e desencontrado. Chegamos inteiros, tripulação e barco. Ancoradouro em Suape
Por várias vezes, durante a viagem, o serviço de rádio da Embratel informou a ocorrência de “homem ao mar”, nas proximidades de Olinda, no dia 29/10; pedia a assistência de quem o localizasse. Nota triste.
A entrada em Suape foi por etapas, porque o local está bastante assoreado, e não há levantamento batimétrico da Marinha. Na chegada, ancoramos próximos ao Porto, para esperar a maré enchente. Quando ela chegou, avançamos bem próximos à barreira de corais, seguindo os “waypoints” do pessoal de Pernambuco; impressionante aquelas ondas quebrando nos corais, ali, do nosso lado. Então, foi um tal de seguir para boreste, intercalando com bombordo, para chegar a um ponto final indicado. E agora? O ponto final sugerido é no meio do canal, nada abrigado, sujeito à toda correnteza do rio. Seguimos um pouco mais, para um local onde havia 2 veleiros e PÁ, batemos em alguma coisa. Foi de leve, e continuamos. Achamos um local com profundidade de mais de 3 metros; parecia bom, descontando a maré.
A ancoragem escolhida parecia boa, mas viemos a saber que não era: perto das dez da noite, daquele mesmo dia, fomos acordados pelo movimento do barco, adernando para bombordo. Socorro! Começou com dez graus e, à medida que a maré baixava, ia adernando mais, alcançando os 28º. O que fazer? Nada, não havia nada a fazer, só esperar a maré subir, apoiando-se no outro bordo. Eu chorei, porque achava que, com o peso do mastro, o barco ia emborcar de vez. O Dorival me garantiu que não, mas ficava aquela impressão de coisas anormais acontecendo. Pedi a todos os santos, inclusive, pensei em fazer um promessa. Lembrei do meu pai: “Promessa é barganha com o santo!” Mas vale tudo, nessas horas. As horas foram passando, eu vi que nada acontecia de mais grave, então, me apoiei como pude para tirar um cochilo, até o barco voltar ao normal. Passado o susto, vou pagar a promessa, quando chegar na Bahia.Praia Paraíso
No dia seguinte, saímos às 6 da manhã para ancorar em outro ponto, dessa vez, estudando minuciosamente o giro do barco. Achávamos que, naquele dia, íamos ter uma noite restauradora; ledo engano! Próximo à meia noite, com o vento de 30 nós que soprava, soou o alarme do GPS: a âncora tinha garrado. Menos mal que a nova posição era ainda mais profunda! Novamente, nada a fazer. Fomos dormir, e nada aconteceu, digo, não encalhamos. Restaram as emoções.
O lugar ainda está bonito, apesar da construção do Porto, que enfeia a paisagem, e das demais construções previstas para a área, como a de um estaleiro. A curta faixa de praia é de uma areia clara, finíssima, e para dentro do rio ainda há mangue. Não há abrigo para o vento que vem do mar, de leste, e a correnteza do rio é muito forte.
Aqui, estamos filados ao vento, e não passamos calor. Nem chegam os pernilongos. Gosto dessa vida mais selvagem. Não há marinas, temos que sobreviver com a água disponível, e com nossa energia. Estamos sozinhos, mais ninguém na ancoragem, inclusive, no final de semana.
Para enfrentar a viagem de 3 dias até Salvador, nada melhor que andar bastante. Então, fomos caminhar até a ponta do Cabo de Santo Agostinho, onde está o que sobrou de um Forte, o Castelo do Mar. No percurso, encontramos um rapaz que pesca na praia, com quem tínhamos conversado no dia anterior. Ele foi, de boa-vontade, nos mostrar as trilhas da região, fazendo perguntas sobre pesca para o Dorival, achando que ele é um “expert” no assunto; não adiantou eu falar que ele não pesca nada. Por fim, o Dorival montou um destorcedor na linha de pesca do cara, para ajudar com a isca artificial. Ai dele, se herdar nossa sorte na pescaria!
O rapaz é um caso típico daqui: pescador nas horas extras, e trabalhador de uma das fábricas da região, nas demais. Natural de São Paulo, ele oscila entre o “meu, assim….” e “pronto”, para explicar alguma coisa, um deslocado na vida, como nós.
O topo do morro, onde está o Cabo, sofre problemas de erosão, com muitas crateras. E Porto e Ilha dos Francesespensar que em 1498, quando Vicente Yañes Pinzon teria aqui aportado, era tudo mata, povoada por índios.
Fomos por uma estrada arborizada, com muitos cajueiros e mangueiras, atrás de um doce de caju-passa, indicado por formigas humanas. O doce é bom, mas a cocada de colher, e a pasta de amendoim da doceira são demais, não ficam atrás.
Estamos descansando e nos preparando para ir direto para Salvador, agora, com previsão de ondas de menos de 2 metros.
Vou ficar com saudades do queijo de coalho, da tapioca, do caju doce, e do povo alegre daqui. Mas também estou com saudades da Bahia, do perfume na entrada da Baía de Todos os Santos, das festas, do colorido, do sorriso aberto das pessoas. Ainda é bom viajar pelo Brasil. Aqui me despeço. Até Salvador.

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Versão do Dorival

Em Cabedelo estava quente, muito quente. Um dos problemas quando se está parado em um cais é que “sempre” o vento sopra de lado e não circula no interior do barco. Os 35ºC dentro do barco estavam tirando a Catarina do sério. Foi quando percebemos uma pequena janela de previsão do tempo que indicava ventos de E e ondas de 2,5 metros longas, com 12 a 15 segundos de período, supostamente vindas de NNE. Parecia tentador, porque poderíamos adiantar a viagem para Salvador indo até Suape, onde ficaríamos ancorados e filados ao vento.
Planejamos a saída para dia 3 de novembro. Na noite anterior, chegou na marina um veleiro de 43 pés novinho, vindo da Europa, com tripulação brasileira e um italiano. Perguntei do mar e eles disseram que estava alto, mas com ondas longas, sem problema algum.
Às 11:00 horas, saímos do cais da marina do francês, em Cabedelo. A barra
Barreira de Coral do Rio Paraíba já mostrava ondas altas, mas nada que pudesse ser problema para o Luthier. Logo que passamos a última bóia do canal, adotei um rumo SSE, uma orça apertada com 25º de vento aparente. Seguimos com a mestra no primeiro rizo e ajuda do motor. Passamos próximos ao Cabo Branco e depois fomos nos afastando da costa até ficarmos 15 milhas distante, bem longe da área de pesca, porém, antes das rotas dos navios. Mudei o rumo para um pouco mais ao sul e, com isso, a orça ficou mais folgada. O Luthier adernou um pouco mais.
Foi a primeira vez que, com motor ligado, tínhamos sotavento a boreste, e as ondas vinham de SE, e não de NNE, como previsto. Nesse caso, a saída do motor ficou permanentemente debaixo d’água, alterando o som. Fiquei preocupado, e resolvi entrar no barco para verificar se tudo estava em ordem; estava, mas, ficar olhando para baixo, fixando os olhos em filtros de entrada d’água e no motor, foi fatal: com mar de 3 metros, enjoei mesmo. A Catarina, que já não vinha muito bem, logo ficou ruim também.
O mar, apesar de alto, tinha ondas com período de 12 segundos ou mais. O Luthier não caturrava, e não houve um episódio sequer de onda sobre o convés. O problema, na minha opinião, foi forçar a orça com ondas nas amuras. O balanço do barco, e a forma como o vento sai da vela, fez um cheiro forte de diesel queimado entrar no barco, o que para mim é o suficiente (já verifiquei com o barco ancorado, e o motor não tem escape de gases no interior). Tenho que evitar essa situação, do mesmo jeito que evito navegar a motor com vento aparente zero. Pode estar um mar liso, fico mal com o cheiro do diesel.
Logo depois, o vento foi para E, desliguei o motor, abri toda a genoa e velejamos tranquilos, a noite toda. Apesar do enjôo instalado em mim e na Catarina, passamos bem a noite. Velejando, o Luthier balança menos
Forte Castelo do Mar, e o motor desligado é um tremendo alívio para o nariz e os ouvidos. 
Próximos a Suape, mudei o rumo para fazer a aproximação do porto, as ondas que estavam de través passaram a quase popa, e o vento, de alheta, nos levava a 7 nós. À medida que nos aproximávamos de terra, a altura das ondas aumentava e o período encurtava, efeito da proximidade do Porto com o Cabo de Santo Agostinho. A três milhas do Porto, tive que abaixar todos os panos e ligar o motor, segurando o Luthier a 4 nós para não surfar. Depois de passar o molhe e entrar no Porto interno, resolvi ancorar o barco para aguardar a próxima maré alta, antes de entrar no ancoradouro final.
À tarde, com a maré faltando 0,5 metro para encher, rumamos para a ancoragem em frente a um Resort. Usando 18 waypoints, passamos tranquilos pelo canal que fica muito próximo aos recifes. Vinte metros após o ultimo waypoint, raspamos em uma pedra. O Luthier deu um leve tranco, isso deve ter feito um pequeno dano na pintura da quilha.
Ancorei com 4 metros de profundidade. Como a maré aqui é de dois metros, e o Luthier cala 1,6 metros, achei que estava bom. Porém, com o giro do barco, na maré baixa ficamos em cima de um pequeno banco de areia que existe no meio do rio. O resultado foi que acordei às 9:40 hs da noite com o barco adernado 10º para bombordo, e a maré baixa seria às 22:49 hs. O Luthier chegou a adernar 28º. Na manhã seguinte, com maré alta, mudamos para um local com 5 metros de profundidade na maré cheia.
Praia próxima a Suape
Navegantes que estiveram por aqui, quando o porto estava iniciando atividades, e recentemente, dizem que a paisagem mudou muito. Nunca estive aqui antes e, por isso, estou achando tudo muito bonito. É muito interessante como a barreira de corais é praticamente reta desde a passagem norte, junto à ponta sul do Cabo de Santo Agostinho, até a entrada do porto de dentro.
A cidade de Suape e as praias estão bastante limpas, talvez porque estejamos fora da estação, que aqui começa em janeiro.
É uma pena que a margem sul do Rio Massangana terá sua paisagem muito modificada com a construção de uma refinaria.
Logo seguiremos direto para Salvador, estou com saudades de lá, de um bom acarajé, das frutas compradas nas ruas do comércio, das escunas e do Cais Cairú, onde fica o Terminal Náutico da Bahia – TENAB.

 

Luthier – Em Cabedelo e João Pessoa

 

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Versão da Catarina

Quem manda em nós é o tempo: decide quando vamos partir, o que vamos fazer no dia, se vamos ter que poupar energia, etc… Ficamos totalmente dependentes de suas condições.
Estamos esperando uma janela de tempo para seguir viagem até Salvador; o mar lá fora resolveu engrossar e há previsão de chuva, muita chuva, no destino. Casa do Artista Popular 3
Nunca falta o que fazer: lavar o barco, lavar roupa, fazer supermercado, guardar compras, manutenções, e todas as outras tarefas, de uma lista interminável. Fizemos uma parte delas no sábado e domingo passados, afinal, tanto faz o dia da semana.
Nada a reclamar por esperar pela condição de mar e chuva aqui, em Cabedelo, afora o calor que passamos dentro do barco; justamente por ser um lugar muito abrigado, venta menos e não estamos filados ao vento, fato que prejudica a ventilação.
Nunca ficamos sozinhos, tem sempre um agito na marina, ou um convite de amigos daqui.
Dias desses, fomos convidados para um happy-hour no barco de um casal de franceses, chamaram a todos os que ajudaram na atracação do barco. Reunião diferente: falava um por vez, em voz baixa, os outros todos só prestavam atenção. Perguntei se as reuniões entre eles eram sempre assim, e disseram que dependia do nível social das pessoas; não tinha pensado nisso, mas faz sentido. Teve mesa farta, de comida e de bebida; a toda hora passava uma rodada de pizza. Casa do Artista Popular 2
Uma outra reunião, desta vez, na Marina, foi para a despedida do pessoal de um catamarã, que segue para a França. Nosso vizinho francês fez uma apresentação de malabarismo e depois, uma animação com a tripulação de saída, tudo engraçado. Ele é, realmente, um palhaço, profissional. E um bom vizinho: educado, sempre de bom humor, não faz bagunça, nem barulho. Viveu dias de ansiedade, com a venda do barco para um outro francês, que resolveu se instalar a bordo, para avaliar melhor as suas condições (que mala!), mas deu tudo certo, e ele agora vai para a Argentina, buscar um barco maior, desta vez, com banheiro. Quem parece que não gostou nada da saída dele daqui foi sua gata: estava acostumada com o lugar, vinha dormir nos outros barcos, inclusive, no nosso, e às vésperas de sua saída estava agitada, miava para nós, vinha se esfregar. Como é que esses bichos sabem o que vai acontecer? O porco também percebe, chora a noite toda, às vésperas de ir para a panela.
Mas que tempo maluco é esse? No sudeste chove de montão, e também em Salvador, fato inusitado para a época. Aqui, dizem que parou de chover muito cedo. Devem ser as mudanças climáticas anunciadas, além do “El Niño”.
Nesse meio tempo, fomos conhecer os prédios históricos e turísticos do centro de João Pessoa. Gostei muito da exposição da Casa do Artista Popular, com o artesanato da Paraíba, não aquele semi-industrializado, dos mercados populares: são esculturas em madeira e pedra, experiências com cerâmica, bonecas estilizadas, bordados, e peças com uso de um algodão colorido, plantado aqui. O lugar tem uma iluminação perfeita, que valoriza as obras, com paredes trabalhadas contendo espaços para exposição, e tudo limpo, sem aquele pó por cima das peças, que em muitos museus ninguém lembra de limpar, passar um pincel. Um lugar realmente preparado para receber o que há de melhor da expressão do povo, e que, dizem, projetou muitos nomes, até internacionalmente.
Na capital, João Pessoa, rola um papo que deveria haver uma mudança no nome da cidade, que não seria certo uma capital portar o nome de um governante, por mais importante que este tenha sido. Há vários nomes candidatos, inclusive, Cabo Branco, o mais a leste do Brasil. Por mim, esse último seria o mais adequado, por ser um ponto geográfico de relevância, e por ser impessoal, fato que agradaria a gregos e paraibanos.Cidade baixa rios e manguezais Pensando bem, se o nome um dia escolhido foi o de um político, é porque essa é a cara do lugar, assim… “politizado”, com muitos servidores públicos, e talvez esse seja o nome mais adequado para ele.
Quem sou eu, para opinar? Uma legítima paulista, do interiOR, sem direito a nada, é fato . Mas, quem sabe, um dia, talvez eu venha morar aqui, por ser uma cidade tranquila, com muita área verde, parques tombados, um marzão no quintal, ideal para uma aposentadoria. E o povo é cordato: as pessoas na rua e no comércio são solícitas, sempre sorridentes. Já há notícias de alguma violência, trazida pelo avanço do crack, mas isso está para todo o lado.
Para morar aqui eu teria que incorporar o “pronto” no meu vocabulário, usá-lo o tempo todo, com várias funções. Veja bem, “pronto” não é exatamente alguma coisa concluída, terminada, é simplesmente, “tá bom”, “ok”, “entendi”. Se você diz a um vendedor que está só olhando a mercadoria, ele diz, “pronto”, e se afasta. Se você pede uma informação, o informante começa explicando com “pronto”, e termina com ele. É pronto prá tudo.
Um amigo daqui nos disse que somos ciganos, não fixamos raízes. Pela primeira vez fui chamada assim, bem eu, que fujo daquelas mulheres que querem ler a sorte. Fixamos o ferro, sim, mas na água; se assim não fosse, você sabe, o barco iria embora. Acho que mais vale o contato espontâneo, ainda que por pouco tempo, entre pessoas que têm um interesse em comum, pelo mar, que o contato maçante com uma pessoa com quem você simplesmente convive, por necessidade ou conveniência. Casa do Artista Popular 1
Não precisamos morar no mesmo bairro, para nos querermos bem.  E como é bom nos encontrarmos, que seja de vez em quando, para jogar aquela conversa fora, inútil mesmo, sobre barcos fantasmas procurando tesouros escondidos, ou sobre lugares belos, que nunca fomos. Desses bons momentos é que é feita a vida, e é assim que é bom passar o tempo. O nosso tempo finito neste mundo.
Como diria o caipira do interior de São Paulo: tremendo vento “bão” para “oceis” todos!

 

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Versão do Dorival

Cabedelo fica em uma estreita faixa de terra espremida entre o mar e o Rio Paraíba. Há supermercados, padarias, restaurantes e um caminhão que vende abacaxis, picados e gelados, muito bons, na rua da praia.
Rio Paraiba e SanhauaEstamos em uma marina na Praia do Jacaré, que fica em Cabedelo. É uma praia fluvial, no Rio Paraíba. A marina não oferece nada de especial, não tem apoio na atracação e os cabos das poitas não estão bem mantidos.  O preço é alto, mais caro que do TENAB e do Cabanga, e não oferece a mesma estrutura. Acho que é a falta de concorrência porque uma outra marina que havia foi a leilão, está sob júdice, e as outras marinas só atendem à lanchas. Aqui, a grande maioria dos veleiros pertence a franceses. Um deles, do barco ao lado do Luthier, o vermelhinho da foto, é um artista de circo; ele faz malabarismos, magia e brincadeiras bem engraçadas. O cara é bom mesmo, faz o maior sucesso. A mulher dele está grávida do segundo filho e, por isso, ele comprou um veleiro maior, 40 pés, na Argentina. Vendeu o vermelhinho para um francês, que veio de Paris para olhar o barco, velejar um pouco e negociar a compra. Ele me contou que consegue vender bem os shows dele em Paris e em Buenos Aires. Como precisa de lugares abertos para se apresentar, só pode trabalhar no verão. Com as duas opções, Paris e Buenos Aires, pode trabalhar o ano todo. Ainda vou entender esse mercado de europeu comprando veleiros na Argentina.Vermelhinho
Um outro, é um catamarã que estava alugado para uma empresa de charter nas Ilhas Seychelles. Quatro tripulantes, franceses, trouxeram o barco até Cabedelo para trocar a vela mestra, que se despedaçou na costa da África. Aqui, esperaram uma vela nova vir da Argentina. Dois deles eram mergulhadores militares que participaram de um famoso resgate de reféns na Líbia. Um deles ficou com alguma seqüela mental. O inglês deles é muito engraçado o que rendeu algumas piadas de ambos os lados. Saíram dia 27 de outubro para cruzar o Atlântico em direção a Cabo Verde. É uma tripulação profissional e, acho que por isso, ficaram interessados em falar comigo, pelo SSB. Combinei dois horários, 9:00 e 21:00 horas UTC, porque 30 minutos mais tarde falo com um veleiro de uns amigos suíços, que estão indo para Trinidad Tobago. Esse suíço é aquele que eu ajudei a arrumar a antena, apenas dizendo o que ele tinha que fazer. Em 4 anos no mar, ele nunca tinha falado com alguém no rádio SSB, depois disso, falamos todos os dias, e ele fica chateado quando a propagação não permite uma boa comunicação.
Perguntaram-me sobre a violência em Cabedelo. Desde o evento de um assalto à mão armada a um veleiro tipo escuna de Ilha Bela, e o roubo de eletrônicos de um outro abandonado ancorado, não houve nenhum novo caso.
Franceses contam que, em Cabo Verde, um deles teve dois painéis solares roubados, e o outro, o motor do bote. Já escutei muitas histórias sobre Cabo Verde; os viajantes que aqui chegam, em geral, não gostam de lá. Como em qualquer outro lugar, não se pode descuidar.
A Constituição do Estado da Paraíba proíbe a edificação de prédios com mais de 3 andares nas primeiras ruas junto à orla. Com isso, a paisagem nas praias de Cabedelo e João Pessoa é muito agradável; a preservação das árvores e da vegetação rasteira segura a areia, e evita a erosão. Em João Pessoa tem muitas mangueiras, cajueiros e jambeiros nas calçadas. Os manguezais nos rios que cortam a cidade ainda estão razoavelmente preservados.
Igreja de Sao Francisco
A cidade de João Pessoa nasceu junto ao rio. A ocupação da orla marítima, antes usada apenas para veraneio, é coisa recente. A disputa entre grupos políticos da cidade, e de Campina Grande, é muito acirrada. Há até uma certa discussão envolvendo o nome da cidade, porque é a única capital do país que leva o nome de um político. O centro velho está bem cuidado, com alguns prédios restaurados e outros em obras.
A cidade é limpa. Moradores dizem que é porque a prefeitura sempre limpa, e que o povo joga lixo na rua. Não foi o que eu vi, a maioria das pessoas jogam lixo na lixeira. O sistema de esgoto é bom, as praias são próprias para banho, o ano todo. Ainda existem ligações clandestinas jogando esgoto no rio.
A cidade é quente, e parado no píer, sem vento, me dá vontade de ter ar condicionado no barco. Não sei como vou fazer, mas vou ter um. Andei me descuidando e voltei a engordar 3 quilos; estou de dieta. A Catarina me fez comer picadinho de carne com CHUCHU. Odeio CHUCHU. Não entendo como é que a natureza conseguiu com 10% de material orgânico estragar 90% de água. Dessa vez fiz uma reclamação mais séria e ela prometeu que não vai mais fazer CHUCHU.
Assim que o mar acalmar e o vento ajudar, vamos para Suape, e depois, para Salvador.

 

Luthier – De Natal a Cabedelo

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Versão da Catarina

Em Natal/RN, pudemos descansar da viagem de volta de Fernando de Noronha, ancorados no Rio Potengi. Lá, éramos brindados por um vento constante, que aliviava o calor. A correnteza no rio é animal, na maré vazante parecia que estávamos navegando, com tanta água passando pelo casco, transportando folhas das margens a cerca de 5 nós.Ponte de Natal
Muitas vezes, acordávamos, logo ao amanhecer do dia, com um FÓÓÓÓÓÓ: a buzina dos navios rumo ao Porto, anunciando manobras, passando a menos de 200 metros dos barcos ancorados. Cada monstro, digo máquinas incríveis, e suas equipes monstruosas! Por baixo d’água, ecoava o barulho dos hélices, antes mesmo da passagem do navio. O movimento do porto é grande, não é pouca coisa que se transporta pelo mar, saindo dali.
O Iate Clube de Natal oferece apoio aos navegantes com instalações de banheiros, restaurante, água e diesel, e nas redondezas há um bairro com pequenos supermercados, padarias, peixaria e comércio local.
Por conta das longas distâncias para acesso às praias da orla, aos prédios históricos, e a outros pontos turísticos, dividimos uma condução com um casal de espanhóis de um catamarã, ancorado ao nosso lado, e fomos conhecer um pouco da cidade. Na Praia de Ponta Negra avista-se uma duna, tombada pelos órgão ambientais, e há hotéis e pousadas à beira-mar; no caminho da orla, algumas outras dunas, que ainda estão tombadas, com vegetação rasteira e alguns cactos. Tivemos muito assédio de vendedores e repentistas na Praia de Jenipabú, alguns deles inconvenientes. Uma das atrações selecionadas por nosso guia foi um cajueiro que ocupa uma grande extensão de área; o motorista disse, no entanto, que o caju ali vendido hoje vem do Estado de Minas Gerais, que o de Natal é menor, mais amarelado, e ainda não estava na época de frutificar.
catarina e o cajueiro
Uma ocasião, foi mais fácil para os espanhóis entenderem o que o motorista falava, que nós próprios. Ele disse que em Natal era preciso “arengar” com os vendedores, que significa “brigar”, pechinchar, negociar o preço, tendo o mesmo sentido em espanhol.
Esse casal de espanhóis nos disse que comprou o barco faz pouco tempo, e mudou seu nome original, prática que eles sabem ser condenada, pois pode trazer má sorte. Para driblar o eventual azar, deixaram um tapete que traz o antigo nome, e deram algumas voltas ao redor dele, antes de usá-lo. Parece até um ritual indígena mas, quem não tem superstição? O comandante do Acauã nos contou que, durante uma expedição com 4 pequenos catamarãs, ao tirar a foto antes da partida, colocou a mão, inadvertidamente, na bunda de uma estátua de Netuno, e que não deu outra, o “desrespeito” resultou na quebra de todos, todos os barcos. É por essas e outras que não saímos de viagem às sextas-feiras.
No dia 08/10 saímos rumo à Cabedelo/PB, após consultar as previsões, que mostravam uma pequena janela de tempo, que nos convinha. Viagem tranquila, principalmente depois de passar a Ponta Negra e a Ponta da Tabatinga, em que o mar, dizem, é costumeiramente mais calmo. Chegamos no nosso destino no raiar do dia seguinte, sentindo o perfume exalado pela terra, e com 100% de atenção para a barra do rio, por conta das várias bóias que guiam a entrada, e dos bancos de areia, todos anotados na carta náutica, algumas em posição diferente, mas informadas nos avisos aos navegantes.
Fui recebida com um “bonjour” na marina da Praia de Jacaré, enquanto passava o cabo para atracação; acho que eles não viram a bandeira do barco. Os donos são franceses, e a marina está, em sua maioria, ocupada por barcos franceses. Por sorte, uns poucos falam inglês. Barra do Potengi
A natureza das ilhas próximas ao Rio Paraíba está bastante preservada, sem construções, com muitos manguezais e pesca artesanal. As praias urbanas de Cabedelo e João Pessoa também estão incrivelmente preservadas: há uma larga faixa de areia, onde se vêem pedaços de algas e de corais, seguida por faixas de vegetação rasteira e coqueiros. As construções ficam do outro lado das avenidas principais, com prédios de poucos andares.
No dia seguinte à nossa chegada, assistimos a uma competição de Hobby Cat na praia de João Pessoa, cenário lindíssimo, tendo por fundo o plácido mar verde-limão. Terminamos o dia comendo amendoim torrado, com casca, e rubacão, uma comida típica daqui, com nossos amigos do Acauã, na sede do Iate Clube. Nesse lugar se respira vela, efetivamente: vários campeões e ex-campeões reunidos, em diversas categorias de barcos à vela.
Fizemos um passeio totalmente diferente, proporcionado pelo Joca, do Acauã: fomos de Hobby Cat do Iate Clube até as proximidades do Cabo Branco, próximo à Ponta Seixas, a mais oriental do país, primeiro lugar onde nasce o sol no Brasil. O barco parece que anda sozinho, aliás, já sai andando, como um desvairado, com qualquer ventinho. Você fica por cima de uma tela conduzindo o leme e ajustando as velas, levando jatos de água quente do mar o tempo todo. A integração com a natureza é total. Dormi como um anjinho.
Vamos ao estômago: aqui se serve feijão de fava ou o verde, com farinha de mandioca. A comida é boa e barata, com variedade de peixe e frutos do mar. Os bolos, de rolo ou aipim, as broas e as cocadas de forno são um capítulo à parte, Forte dos Reis Magos - Nataltodos deliciosos. O abacaxi e o melão são um mel só, a preços nunca vistos no sudeste. 
E agora, às letras: você sabe o que significa um homem “descuidista”? Não, não é um descuidado, mas aquele que se aproveita do descuido alheio. Já tinha ouvido falar desse sujeito na Bahia, e agora em Cabedelo/Paraíba. Um “cabra” desses está em extinção em São Paulo, por lá não esperam o descuido de alguém, não, vão logo assaltando, à mão armada. Outra: aqui sou “galega”, e se vêem muitos outros “galegos”.
Tenho que confessar, depois de alguns meses a bordo, estou ficando com umas manias: não gosto da insistência de vendedores, de produtos ou idéias, que não me interessam. Nem que queiram me obrigar a fazer o que não quero. Nem da política de grupos de pessoas. Estive olhando os meus dedos das mãos, por esses dias, e me parece que a membrana, digo, a pele, entre eles, está crescendo. Será que estou virando um bicho do mar? Livre

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Versão do Dorival

Em Natal, fomos recebidos pelo Iate Clube, que oferece aos visitantes boas poitas, localizadas em frente ao clube e a uma área pertencente ao Exército. Além da poita, também se usa o ferro para ajudar a segurar o barco durante a vazante da maré. A correnteza é muito forte.
Logo depois que se entra no rio Potengi, passa-se por baixo de uma ponte muito alta, que pode ser vista a 20 milhas da barra. A barra é sempre bastante agitada, especialmente quando sopra um SE forte.Saindo de Natal
Em Natal, visitamos o Forte dos Reis Magos, que está muito bem conservado. Já as praias da cidade, Ponta Negra e Jenipabu, estão sofrendo de ocupação desordenada, falta de árvores, e pelo avanço do mar. Um pesqueiro da Nigéria teve problemas no motor e, segundo a declaração dos tripulantes, ficaram no Atlântico à deriva até encalhar na praia de Búzios em Natal. Achei um pouco difícil de acreditar. Tiveram muita sorte (será?) porque três milhas mais ao norte e teriam batido em corais.
A saída de Natal para Cabedelo foi planejada seguindo a rotina anterior às regatas. Lá estava eu, todos os dias, olhando os diferentes sites de previsão meteorológica, me perguntando se eu sairia hoje.
Para previsão do tempo, utilizo alguns sites (Ugrib, Buoyweather, IMPE, LAMMA, etc..) e, as Cartas Sinóticas e a Meteomarinha da Marinha do Brasil. Algumas dessas fontes fornecem a previsão de vento e ondas baseadas em modelos matemáticos, já em outras, Marinha e Climatempo, há interferência de meteorologistas na elaboração das previsões.
Apesar de todas essas fontes de informação, temos ainda que ajustar nossa percepção ouvindo o pessoal local. Quando todas as fontes coincidem no resultado apresentado é fácil, o problema é quando as informações são discrepantes ou nada tem a ver com que observamos na ancoragem. Desde que saímos de Salvador as previsões têm sido certeiras.
Depois de 3 dias descansando e participando de festas, passei mais 5 dias olhando aquela previsão de mar de 2,5 metros SE, com vento de 15 nós SE estável. Orçar contra ondas é chato demais, ainda mais nessas condições.
No dia 7 de outubro, as coisas começaram a se modificar, eu via o mar lá fora mais calmo, e o vento mais fraco já rondava para E. No dia 8, amanhecemos com um vento E de 8 nós, e ondas de 1 metro, que coisa boa, resolvemos sair. Para chegar em Cabedelo de dia, calculei que devíamos sair às 13:30 hs, estimando velocidade média de 5.5 nós, levaríamos perto de 20 horas. Tomamos café da manhã, preparei o barco e fui até a marina me despedir do pessoal e anotar a saída no livro do clube.
Algumas pessoas do clube, e alguns tripulantes de veleiros visitantes, não gostaram muito da nossa “saída repentina”. Se eu desagradei alguém com isso, peço desculpas, mas o Luthier é assim mesmo, está sempre pronto para partir, não porque tenhamos pressa para chegar a algum lugar, mas se dá vontade e as condições do tempo estão boas, vamos, é só isso, puro exercício de liberdade. pesqueiro na praia de búzios
Aliás, se nós sairmos, e o mar estiver de mau humor, voltaremos. Não saímos com previsão de mar ruim e ventos desfavoráveis.
Havia previsão de vento E, 10 nós, e ondas de SE, 1,5 metros por dois dias, e mar de 2,5 metros de SE e ventos também de SE de 15 nós logo depois, durando 5 dias. Os locais e outros navegantes que conhecem a região me disseram que essas condições de mar e de vento são típicas nessa época, ou seja, pequenas janelas para descer a costa até Cabedelo. Um outro veleiro resolveu sair de Natal 3 dias depois de nós, bem no meio da previsão de ondas altas e ventos fortes vindos de SE. Além de terem uma travessia extremamente desagradável, tiveram avarias.
Saímos na hora planejada. Passada a barra do Rio Potengi, adotei um rumo SE velejando com través apertado, 30º com o vento aparente, com a mestra no primeiro rizo e ajuda do motor. O vento era fraco, 8 nós em média. O vento estava mais para ESE do que E. 10 milhas fora da foz do rio o mar já estava bom, 1 metro em média, com ondas de ESE. Seguimos assim, afastando da costa, até o anoitecer. Quando já estávamos a 20 milhas da costa, adotei um rumo paralelo a ela que nos permitiu velejar com vento aparente de 45º (o vento já estava E conforme previsto), com ondas de 1 metro, fantástico, muito confortável. Desliguei o motor e passamos a noite toda velejando a 6 nós, com a mestra no primeiro rizo e toda a genoa aberta.
Durante a noite, avistei muitos pesqueiros, todos a meu boreste, sem problemas. Luthier Catarina e Dorival em CabedeloAvistei também um navio onde as duas luzes de mastro pareciam na mesma altura, dificultando distinguir qual era de proa e qual de popa e não era possível avistar as luzes de navegação.
Nosso rumo era de colisão, mas estávamos distantes ainda. O céu estava limpo, e a lua iluminava tudo, e por isso, o radar estava desligado. Liguei o radar, marquei a posição dele, e verifiquei novamente depois de 6 minutos. Com isso, pude determinar o rumo e velocidade do navio. Decidi por mudar o meu rumo 2º para boreste, o suficiente para passar sem problemas pela popa dele. Só pude avistar as luzes de navegação quando estava a uma milha do navio.
Quase no través de Cabedelo, mudei o rumo para seguir direto para a bóia 2 do canal de entrada do porto. Navegamos mais rápido que o previsto. Com vento de alheta, reduzi os panos para fazer a aproximação a 4 nós e chegar na bóia com luz do dia. Chegamos tranquilos na Praia do Jacaré em Cabedelo. Estamos no cais de uma marina que pertence a um francês.

O Resgate da Tripulação do Trimarã Acauã

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Normalmente, não fazemos referência a nomes de pessoas e de barcos envolvidos nas nossas estórias. É uma forma de respeito à privacidade deles sem perder nossa liberdade para escrever porque, se a minha versão e a da Catarina muitas vezes não coincidem, é provável que nossas impressões não sejam as mesmas dos envolvidos nos relatos.
Excepcionalmente, e devido à natureza do ocorrido, conversei com a tripulação do Acauã, que me autorizou a citar o nome do barco, e deles próprios, neste relato.
Acauã é o trimarã da Paraíba que ajudamos a atracar no Cabanga, cuja tripulação me deu as dicas da regata para Noronha (REFENO) e que me alertou, quando estava a leste da linha, para acertar o rumo.
Conversei com o Savigny, comandante do Acauã, com o Joca e o Igor, tripulantes (Igor é o falador), querendo saber como tudo aconteceu. Eles pouco lembram do momento. Relataram que, a cerca de 20 milhas de Cabedelo, uma rajada de vento, mais duas ondas altas seguidas, simplesmente, e inevitavelmente, fizeram o Acauã capotar. Quem já sofreu um acidente de carro, ou mesmo uma queda da bicicleta, sabe bem como é difícil lembrar exatamente as circunstâncias do ocorrido. De fato, pouca diferença isso faz. O que vem depois é o que realmente importa.
O Savigny fez um corte no nariz, o Joca e o Igor não se feriram. O Savigny conseguiu recuperar um localizador pessoal, que funciona como um EPIRB: ele transmite a posição obtida por um GPS interno e, se comandado, manda uma mensagem de “tudo bem”, “emergência”, ou pedido de “resgate”, conforme o botão acionado. Um sinal de resgate (911) foi transmitido. O Igor mergulhou algumas vezes e recuperou um rádio portátil, 12 litros de água e alguma comida, além da caixa de primeiros socorros, e os fogos.
Uma das lonas que ficava entre a cabine central e uma das bananas do trimarã foi rasgada para livrar o bote, que já estava com seu fundo rasgado, e os estais foram cortados para que o mastro se soltasse do barco porque, estando debaixo da água, poderia perfurar o casco, complicando as coisas.
O Acauã emborcado permaneceu flutuando, abrigando sobre o casco central os dois tripulantes e o seu comandante. Um sinal de socorro foi transmitido pelo rádio para Cabedelo Rádio, uma estação de comunicações móveis marítimas, operada pela Embratel.
Contando com a posição atualizada pelo localizador pessoal, os navios da Marinha iniciaram a navegação para resgatar nossos amigos. O mar estava ruim, os navios não podiam se deslocar a mais de 12 nós.
Antes de anoitecer um helicóptero passou sobre o Acauã, e um navio passou ao seu lado. Foram lançados os fogos, mas ninguém os avistou.
Anoiteceu, e as coisas começaram a ficar mais difíceis.
Como a Marinha tinha a posição deles, os navios se aproximaram o suficiente para que a tripulação do Acauã avistasse os navios, mas os navios não podiam localizá-los porque estavam no nível do mar, e as ondas encobriam as únicas luzes de que dispunham.
Segundo a Marinha, depois que Navio Patrulha Guaíba seguiu erradamente uma luz que era de um pesqueiro, o capitão do Rebocador de Alto Mar Triunfo decidiu apagar completamente os navios e mandou acender um facho direcional, piscando. Esse facho foi sendo rodado até que a tripulação do Acauã os visse. Dessa forma, o Triunfo pôde determinar a rota a seguir, tudo isso coordenado pela comunicação via rádio VHF. A importância fundamental disso deve-se ao fato de que o navio precisa de meia milha para parar, e tem que fazer isso próximo o suficiente para mandar um bote de regate e, é claro, somente depois de avistá-los. Assim foi até que foram localizados e resgatados. O Acauã não resistiu ao reboque e se desintegrou.
O sucesso do resgate deveu-se à habilidade e dedicação da tripulação dos navios da Marinha, e ao conhecimento e experiência de mar da tripulação do Acauã. Somado a isso, estavam muito bem equipados com roupa de tempo e equipamentos de salvatagem.
Já em Cabedelo, todos bem, conversei com os tripulantes. Savigny ainda se atrapalha um pouco ao falar do Acauã, se referindo ao barco como se ele ainda existisse. Igor não consegue falar do Acauã sem encher os olhos de lágrimas. Savigny nos disse que, no Acauã, foi colocado muito mais amor que dinheiro, principalmente pelo Igor.
Amigos do Acauã: 
- um barco serve para passear, participar de regatas e até morar a bordo, mas também serve para nos abrigar. O Acauã levou vocês para passear, com ele foram bicampeões da REFENO (2008 e 2009) e, finalmente, os abrigou após um acidente. Ele soube retribuir todo o carinho que recebeu, resistiu forte, mais de 10 horas, até que vocês fossem resgatados, e se foi.
Tenho certeza que haverá outro multicasco para brincar no verão, e correr regatas. Ele também será tratado com carinho, e as lembranças do Acauã serão guardadas no coração, para sempre.
Nós estamos muito contentes por vê-los bem, e agradecemos à Marinha do Brasil e aos seus bravos marinheiros por salvaguardar a vida nessa nossa imensa Costa, e no Atlântico Sul.

Dorival

Luthier – De Noronha à Natal

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Versão da Catarina

Qual é o cúmulo da sacanagem para o comandante de uma embarcação em trânsito? A tripulante na TPM, desatenta, esquecida, pronta para iniciar um motim. E qual o máximo da sacanagem para a tripulante? Não poder mergulhar em Fernando de Noronha, para não atrair tubarão.

Não há registros de ataques de tubarão em Fernando de Noronha, mas ninguém quer ser o primeiro da estatística. Quem viu a festa dos tubarões no Porto da Ilha, no cair da tarde, quando se jogam vísceras restantes de uma peixaria local, não pensa em correr o risco; muitos questionam o que pode acontecer quando esse serviço falhar, por qualquer motivo.

Quando estávamos em Recife, no feriado de 7 de setembro, a imprensa noticiou que um estudante foi levado pela correnteza na Praia de Piedade, em Jaboatão de Guararapes, sendo encontrado morto, com partes das nádegas e coxas laceradas por mordidas de tubarão. A causa da morte não foi afogamento, mas a hemorragia causada pelas mordidas. Poucos dias depois, outro caso. As motivações dos ataques, que vem se intensificando desde a década de 90, podem ser várias, desde a poluição, à destruição dos manguezais, e muitos especialistas arriscam ser a construção do Porto de Suape.FN-1

Depois de uma viagem puxada, nada melhor que andar, e não falta morro e trilha na Ilha, para subir e descer. Nos aconselharam a usar camisa de manga comprida, chapéu e óculos escuros, porque o sol é de lascar; venta demais, o que compensa o calor do vestuário. Levamos água para beber, porque o clima é árido, e nem sempre há uma barraquinha por perto.

Pegávamos trilha comendo poeira. Aonde foi parar a mata tropical da Ilha? Onde estão as sombras das árvores? Dizem que elas existiam, e que houve uma devastação por conta do presídio que lá funcionou por anos, por medida de segurança, e hoje os ambientalistas não se entendem quanto ao seu reflorestamento; restam graminha seca e arbusto baixo. Ainda assim, sem mata, o lugar é esplendoroso, com praias de areia fina, água transparente, muita vida marinha, e muitos pássaros. Queria mais tempo para conhecer tudo.

No dia da premiação da Refeno fomos conhecer a praia do Sancho, de bugue, e deu para arriscar nadar de snorkel numas piscinas isoladas que se formam. Muitos peixinhos curiosos vem ver o que está acontecendo, e bicar a ponta dos nossos dedos das mãos. Depois, fomos almoçar na Praia da Cacimba, com amigos. Estava apertada para ir ao banheiro, mas informaram no restaurante que só tinha o natural, nuns matinhos lá trás, o que para mulher é mais complicado; teria que descer a ladeira e ir fazer no mar. Nesse mesmo restaurante passou correndo, por entre as mesas, um rato, que foi formidavelmente morto por uma das irmãs gêmeas, que serviam no local, com um coco verde. Olé!! Parece que eles são praga na Ilha.FN-2

E como não se vê o tempo passar, já era hora de voltar e tomar banho para a premiação da Regata. O traje social teve que ser um molha-bunda-seca-rápido, de tactel, porque no Porto, onde ancoramos, tem muito swell, e você vai se molhando logo no trajeto. Também não dá para colocar salto alto, porque o desembarque é na areia. Ah, pena que não deu certo comprar um bote com quilha, está fazendo uma super falta no Nordeste.

Pela primeira vez na minha vida, subi num pódio. Fiquei com medo de escorregar de lado. Mas deu tudo certo, muitos aplausos, cumprimentos mútuos. Ficamos muito satisfeitos que nossos amigos, do trimarã da Paraíba, pegaram o primeiro lugar na classe multicasco d: merecido para uma viagem puxada, tomando banho de água salgada, o tempo todo.

O excessivo balanço do mar na ancoragem dificulta um pouco o sono. A compensação são os golfinhos rotadores ao amanhecer, em volta do barco, e as tartarugas.

São tão poucos os dias autorizados para permanecermos na Ilha FN-3 que, já no segundo, estávamos planejando a volta. Na véspera, a parte mais difícil da viagem: a despedida de amigos que não sabemos quando vamos encontrar de novo. Temos que nos acostumar com isso, mas não é fácil, principalmente de alguns estrangeiros, que sabe-se lá quando veremos. A amizade, e a afinidade, são sentimentos da alma, transcendem os desencontros eventuais da língua; certo é que, tais amigos vão ser guardados no coração.

Resolvemos ir até Natal, pela oportunidade, e porque não conhecíamos a cidade. Saímos no sábado, dia 26 de setembro, às 8 horas da manhã, horário de Brasília, juntamente com uma flotilha. Dessa vez, o combinado era navegar na boa. Saímos já no primeiro rizo da vela mestra. O mar estava chato, com muitas ondas de lado, que foram piorando à medida que nos aproximávamos de Natal. Tomamos muitos banhos de água salgada, de ondas que lavavam o convés. No nordeste, esse foi o pior mar que pegamos; em compensação, teve bastante vento, o tempo todo, tanto que viemos com a genoa rizada.

Na chegada a Natal, ouvimos pelo VHF o pedido de resgate de nossos amigos do trimarã da Paraíba. Fomos informados pela Marinha que um rebocador já estava a caminho para resgatá-los. Ficamos muito apreensivos, e só pudemos ter notícia de que tinham sido resgatados no outro dia, pela manhã. Pelo que soubemos, o barco capotou, e eles ficaram aguardando resgate por dez horas, naquele mar batido. Por fim, estão bem, nasceram de novo. Então, vida longa aos bravos, digo, aos reis!

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Versão do Dorival

No dia seguinte, em Fernando de Noronha, acordei às 5:00 hs (Brasília). O dia já estava muito iluminado e, ao olhar lá fora, vi que ancorei muito perto das pedras, não mais do que 30 metros, e havia lançado pelo menos 50 metros de corrente. O susto foi enorme, porque se o vento muda, o choque com as pedras seria inevitável. Levantei âncora imediatamente, e fomos para mais perto do molhe do porto.Luthier e wawatoo no porto de Recife

A água em Fernando de Noronha é tão limpa que, com profundidade de 10 metros, pude, com calma, escolher onde baixar o ferro, evitando as pedras. Coloquei uma bóia de arrinque com 8 metros de cabo, de tal forma que ela ficasse submersa, imaginando que poderia me ajudar a soltar o ferro, caso ficasse preso nas pedras do fundo.

Dormi apenas 4 horas, mas depois dessa, mais a adrenalina da chegada, não consegui mais pegar no sono. Fomos para terra.

Já havia festa na Ilha, bandeiras dos patrocinadores, água, refrigerante e frutas à vontade para os participantes. Revimos os amigos que fizemos no Cabanga e, depois de muita conversa sobre as estratégias adotadas, fomos passear. Logo soubemos que fomos o 32º barco a chegar na Ilha. À tarde, saiu a primeira publicação, ainda preliminar, da classificação e vimos que estávamos em primeiro na classe aberta B, e que os nossos amigos do trimarã da Paraíba também foram primeiro na classe multicasco D. Fizeram uma tremenda festa para nós, compraram alguns peixes com os pescadores locais e, em uma casinha próxima ao Museu dos Tubarões, comemos peixe assado e cru, à moda japonesa.FN-5

No dia seguinte, fomos a diferentes praias passear. Encontramos muita gente, a Ilha estava cheia de velejadores.

À noite, a festa da premiação, muita gente, fotos, etc..

A ancoragem em Fernando de Noronha é muito mexida, eu acordava o tempo todo achando que estava navegando. De repente, na manhã seguinte à premiação, tudo acabou, as bandeiras já haviam sido recolhidas e muitos barcos já estavam se ajeitando para sair. Muitas despedidas.

Nesse dia, o skipper do trimarã grandão veio até o Luthier, não falamos muito, estava claro que a despedida era difícil, para mim e para ele. Tanto em Salvador como na Refeno sempre estávamos juntos, trocando idéias e ajudando um ao outro, e a outros navegantes que cruzaram nosso caminho, foram meses de convívio. O adeus foi um abraço rápido, e ele saiu com o bote em alta velocidade sem olhar para trás, também entrei no barco para não ver.

Fui até o trimarã da Paraíba para ajudá-los a resolver uma pane elétrica, falamos muito sobre a regata e combinamos nos encontrar em Cabedelo, um porto próximo à João Pessoa. Um deles me contou que, durante a viagem, ficaram imaginando que eu e a Catarina estávamos comendo iguarias em pratos de louça, enquanto eles estavam no pequeno trimarã comendo sanduíche frio, até que houve a conversa pelo rádio e eles viram que estávamos competindo mesmo, indo para o outro lado da ilha, comendo bolacha salgada, nada de iguarias.FN-4

Dia 26 de setembro saímos junto com outros 15 barcos para Natal. Quando fui suspender o ferro, notei que ele estava em baixo de um outro veleiro da Alemanha. Aproveitei um momento de mudança na direção do vento que tirou o veleiro de cima da âncora e comecei a recolher a corrente, com a Catarina levando o Luthier a vante, lentamente, no motor. Nossa âncora acabou por “pescar” a corrente do veleiro alemão. Com o croque, peguei a bóia de arrinque e, soltando peso da corrente no braço da âncora pude, puxando o cabo, soltar facilmente a corrente do veleiro alemão. Enfim, a bóia me ajudou de outra forma, porque o ferro não ficou preso ao fundo, mas vi um veleiro que ficou uma hora para frente e para trás, para soltar a âncora.

O trimarã da Paraíba também saiu nesse dia, mas seguiu para Cabedelo.

A viagem até Natal foi boa, velejamos tranquilos, em regata, mas sem competir. A chegada foi mais chata, o mar estava ruim, e o vento entre 20 e 25 nós. Assim que chegamos, ouvimos pelo VHF, canal 16, Natal Rádio, o aviso do pedido de socorro do trimarã da Paraíba. Nossos amigos capotaram a 20 milhasFesta da premiação em Fernando de Noronha de Cabedelo, estavam à deriva, em cima do trimarã emborcado. Entrei em contato com o Rebocador de Alto Mar Triunfo, da Marinha do Brasil que, pelo SSB, me informou que estavam indo fazer o resgate deles. Outros dois Navios Patrulha, o Graúna e o Guaíba, também foram. Foram resgatados perto da meia noite, mais ou menos 10 horas depois do capotamento.

O sucesso desse resgate se deve a duas coisas: o preparo, e a inteligência estratégica do Comandante do Triunfo, e aqueles “dispositivos automáticos de iluminação” que a marinha exige que os veleiros engajados na Refeno tenham nos coletes. Além disso, os tripulantes estavam bem equipados, e têm bastante experiência de mar.

Em uma festa no Clube aqui de Natal, o Capitão do Triunfo me contou como foi o resgate. Assim que eu falar com os tripulantes, conto essa história. Eles estão bem, descansando.

Luthier na REFENO/2009

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Versão da Catarina

Não me lembro de ter passado tanto calor nos últimos tempos como na cidade de Recife: às 5:00 h da manhã o dia já nasce, quente, e a temperatura ambiente chega aos 34º C antes do meio dia, a da água aos 29ºC, e nem estávamos no verão, ainda. Efeito dos 8º e pouco de Latitude Sul, e do pouco vento dentro da cidade.

Na visita ao Mercado de São José, erigido sob uma estrutura de ferro, tivemos que tomar uma decisão: ou ficávamos por lá para comprar frutas, legumes e pão, ou pegávamos uma condução para o shopping: venceu o ar condicionado. Do Mercado levei sândalo, um capim perfumado, que dizem ser bom para o bolor; na mesma barraca de ervas, perguntaram ao Dorival se ele não queria levar catuaba, ou jenipapo, as “pílulas azuis” naturais.

O artesanato vendido ali é colorido, cheio de bonecos, figuras esculpidas em madeira. Há muitas casas com artigos para umbanda e candomblé, o que me surpreendeu, achei que essa fosse a tônica da Bahia.

Foi no Recife que venci o desafio de fazer tapioca: a massa é fácil de encontrar, e barata. Fiz à moda, com queijo coalho e coco ralado. A delícia é muito calórica e, talvez por isso, gostosa que “é a gota”.

Nossos amigos nos levaram ao Museu Ricardo Brennand, que expõe uma vasta coleção particular, doada ao estado. Impressiona a jardinagem externa, que inspira a celebração de casamentos da alta sociedade, inclusive, entre pessoas do mesmo sexo, como um recém ocorrido. Há uma extensa coleção de armas brancas: várias formas de perfurar os outros, com a ponta afiada entrando diretamente, ou torcendo, em tamanhos e punhos à escolha do agressor. Crueldade humana ou defesa própria? Certo é que, desde épocas remotas, o homem não se entende.

Gostei mesmo da coleção francesa de bonecos de cera, que reproduzem as feições, estaturas e vestuários da corte de Luis XIV, no julgamento de um encarregado de finanças do rei, chamado “Nicolas Fouquet”. O “cabra” resolveu dar uma festa deslumbrante para 600 pessoas, em um castelo que ostentava luxo, e o rei desconfiou que algo estava errado. O próprio Fouquet fez sua defesa, justificando a herança que tinha recebido, seu trabalho árduo, blá, blá, blá, mas seus inimigos há muito preparavam sua fritura. Incrível como ele conseguiu se safar da morte: pegou prisão perpétua, e arresto dos bens.Largada  no Porto de Recife

O capitão do Luthier se encantou com uma carta náutica de 1850, onde aparece o Rio São Francisco. O interessante foi ver que, naquela época, a foz do rio tinha profundidades sempre maiores que 12 metros.

Grande correria às vésperas da Regata: finalmente prendemos umas aparas na dinete, para proteger o corpo no descanso, fizemos outras modificações no convés, conserto de vazamentos na pia da cozinha, prendemos os estofados que voam na viagem, etc… Parte da lista de itens intermináveis. E mais o supermercado de véspera, contando com não encontrar produtos em Fernando de Noronha.

Em que pese a REFENO tratar-se de uma festa, dava para perceber o clima de disputa, meio tenso, entre as tripulações, e um certo estresse para arrumar os últimos itens do barco, a tempo.

Apesar de eu não entender muito bem essa estória de linha imaginária de largada, porque era a primeira vez que participávamos, não fizemos feio, e nos apresentamos em primeiro lugar no check-in. Depois da largada, e de passarmos a bóia vermelha, minha primeira mancada: aquartelei o barco enquanto o Dorival prendia o punho da mestra, que se soltou, e ajeitava o cabo da genoa, que enroscou. Renderia o prêmio pato.Refeno velejando 1

Diferente do relato de outros barcos, não topamos com pirajás, talvez por estarmos mais a leste; pegamos, sim, um sol inclemente, a ponto de não ter uma sombra para se abrigar, e nem uma chuvinha para refrescar. Naquele marzão, de profundidades de mais de mil metros, cor papel carbono com um pouco de azul cobalto, parecia que estávamos num deserto. Dentro do barco, um forno.

Concordei com o Dorival com o fato de nos mantermos mais a leste da linha inicialmente traçada para Noronha, que nos trazia mais vento, co m um certo pé à trás. Perguntava a ele: “Quem garante que vamos ter vento para voltar?”. Se a minha função é questionar, traduzindo, buzinar na orelha do Dorival, quando estávamos a mais de 20 milhas da linha, comecei a minha campanha para voltar. Enfim, ele concordou, e tomamos o rumo para o norte. Começamos a nos aproximar da linha traçada para Fernando de Noronha muito devagar. Eu dizia para ele que estávamos andando paralelo à linha, e bem longe, mas ele não me ouvia. Foi quando uns amigos nossos, de um trimarã da Paraíba, falaram com o Dorival pelo rádio, através de seu capitão: “Eu recomendo que você volte para a linha”, com todo o cuidado para não melindrar o comandante do Luthier. Aí eu soltei meu clássico: “Tá vendo?” Seguindo o conselho dos nossos anjos da guarda, começamos a rumar para a linha, sempre bem à leste dela.

A oitenta milhas da Ilha, avistamos os primeiros pássaros, planando a maior parte do tempo.

Nesse ponto, já achávamos que seríamos uns dos últimos, por conta do número de horas navegadas, em comparação com as edições anteriores da Refeno. Qual foi nossa surpresa ao nos aproximarmos da linha, vermos outros barcos por bombordo, cada vez em número maior.

Por não conhecermos o lugar, a chegada foi um pouco confusa: com tantas luzes, não sabíamos qual era a do luminoso da Regata. E era um tal de perder o vento depois da Ponta da Sapata, e entrar rajadas repentinas, realmente, um sufoco. Catarina em Fernando de Noronha

Até que passamos da linha de chegada e ancoramos, exaustos, pelas últimas 30 horas de vigília, com mar batido. Tão exaustos que o Dorival brigou comigo, por uma besteira; isso não é comum e, por conta disso, concluí: regata não é para nós. Avisei ao Dorival que quero cruzeirar por aí, com previsão de ventos favoráveis, saindo na hora mais conveniente para nós, rizando as velas antes do anoitecer, levando o barco macio para fazer refeições, tudo sem estresse. 

Levamos a nossa casa nas costas, com todas as nossas coisas. Esse barco é nossa vida, esperamos muito por ele, tenho muito xodó pelo nosso baby e, o quanto seja possível, quero só paparicá-lo. Valeu, aprendi muito, acho também que me diverti. Depois de tudo, era só desfrutar da Ilha, nos poucos dias que podíamos permanecer, e das festas da Regata. Assunto para depois do mergulho, tá bom? Ou, como dizem os recifences, “entendesse?”

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Versão do Dorival

A REFENO é uma festa, desde a chegada no Cabanga, à preparação dos barcos, largada, e, é claro, a Ilha de Fernando de Noronha. Só não é uma festa a navegação de 300 milhas competindo: é cansativo, duro, mas, muito gratificante.

Chegamos ao Cabanga no dia 1º de setembro, fomos bem recebidos. No clube havia apenas três barcos de fora, que vieram para a regata; o nosso, o quarto, era o único com alguém morando a bordo. Logo chegou um casal do Rio Grande do Norte, que também mora a bordo de um veleiro de 33 pés.

Alguns dias depois chegou, às 5:00 hs da manhã, um trimarã de 30 pés com 4 tripulantes da Paraíba, muito simpáticos. Ajudei na atracação do barco ao lado do Luthier. Estavam tão cansados que, um deles, muito falador, ficava segurando o cabo na mão e não me passava para usá-lo na amarração. Eu pedia o cabo, e ele ficava me olhando, parado, sem fazer nada, mas falando sem parar. Quando perceberam que estavam safos, eu ainda amarrava o barco e eles já estavam devorando sanduíches, com duas mordidas, e pratos de arroz de polvo.

Aos poucos, principalmente na última semana, chegaram muitos barcos: algumas máquinas de regata, barcos de série e muitos candidatos a tripulantes. Para meu gosto, aquele trimarã enorme que estava em Salvador, cujo skipper foi comigo ao resgate de um veleiro, foi contratado por um patrocinador para participar da REFENO.

O Luthier estava pronto muito antes de toda essa muvuca se iniciar. Depois de muitos encontros de fim de tarde, cervejas, mentiras, vantagens, etc.. o dia da largada se aproxima, e, antes disso têm a reunião dos comandantes. Nessa reunião, são apresentadas as regras da regata, as do ICMbio (parte separada do IBAMA que cuida do Parque de Fernando de Noronha), e os procedimentos de acompanhamento usados pelos navios da Marinha do Brasil. Foi solicitada a colaboração dos barcos equipados com HF (SSB), na tomada de posição dos barcos fora do alcance VHF, repassando as informações aos navios da marinha.Refeno velejando 2

Um amigo de Parati, que têm HF no barco, falou comigo que não tinha experiência para fazer aquilo. Procure incentivá-lo a participar.

Na noite anterior à largada, recebi o skipper do trimarã no Luthier. Juntos vimos que a previsão era de vento ESE na largada, fraco, que rondaria para NE, e junto à costa iria ficar sem vento. Os tripulantes do trimarã da Paraíba também me falaram que era melhor ficar acima da linha que seria o rumo direto de Recife até Fernando de Noronha, principalmente na chegada, por conta de uma correnteza de leste para oeste que têm na região.

Chegou o dia 19 de setembro. Às 15:00 horas abriu o check-in do grupo vermelho, primeiro a largar, e o Luthier foi o primeiro barco a fazer o check-in. Depois, ficamos com apenas a mestra, indo e vindo na área de partida até que, faltando quatro minutos, abri a genoa e saímos em direção à largada. Logo vi que ia queimar a largada, dei um bordo e voltei. Acabamos largando em 7º lugar. Porém, o vento de 11 nós nos levou para a saída do porto a 6 nós, com isso passamos do molhe de fora já em quinto. Depois de dois bordos bem sucedidos deixamos a bóia norte a bombordo. Uma hora depois se soltou o punho da vela mestra junto ao garlindéu. Fui até o mastro arrumar, mas, quando folguei a mestra, a Catarina perdeu o rumo e aquartelamos. Ficamos parados por alguns minutos, o suficiente para que muitos barcos passassem, para arrumar o punho da vela e soltar uma das escotas da genoa, que estava enroscada no bote.Porto de Fernando de Noronha

Retomamos o rumo direto para Noronha em uma orça fechada, 35º com o vento aparente, cada vez mais fraco, confirmando a previsão. Estava  ficando difícil manter-se na linha direta para a Ponta da Sapata em Fernando de Noronha. Logo comecei a ouvir no rádio, VHF, alguns relatos de barcos que estavam sem vento algumas milhas à minha frente. Dei um bordo e comecei a orçar para E, 110º magnético, 87º rumo verdadeiro. Velejamos com velocidade de 3 a 4,5 nós durante 22 milhas. Depois disso, dei outro bordo e adotamos um rumo paralelo à linha direta Recife – Fernando de Noronha. Essa opção é conhecida pelo pessoal como bordo suicida, porque tipicamente deixa o velejador sem vento. Não foi o caso: com vento o tempo todo, depois do bordo começamos a desenvolver velocidades sempre maiores de 6 nós, porém, isso fez o percurso total até Fernando de Noronha ficar em 327 milhas.

Ficamos tão distante dos outros competidores que a única forma de passar nossa posição para a Marinha foi pelo HF. Lembro que, quando passei o rumo de 110º mag o operador de rádio do navio da Marinha pediu para eu confirmar o rumo. Soube depois que fomos os únicos a adotar essa estratégia.

Depois de algumas horas, comecei a ajustar nosso rumo para se aproximar da linha direta, mas estava tão cansado que os ajustes foram insuficientes. Mesmo assim, foi o suficiente para, quando estávamos a 80 milhas da Ilha, ouvir 5 veleiros tentando passar suas posições para a Marinha, pelo VHF, sem sucesso. Anotei a posição, rumo e velocidade de todos eles e passei para o Navio da Marinha pelo HF-SSB. Avisei a todos que tinha passado as posições e, então, o comandante trimarã da Paraíba, aquele que ajudei a atracar, perguntou qual era a minha posição, quando passei para ele, ele disse assim “ olha comandante, eu recomendo que você mude seu rumo para seguir em direção à linha porque assim você vai chegar do outro lado da Ilha”, soube depois que os outros tripulantes disseram para ele: “recomendar nada “p#$!”, manda o cabra mudar o rumo”. Parece que acordei com isso. Rumo acertado, velas ajustadas, e o Luthier rumou muito rápido para a Ponta da Sapata, vindo de leste, com a correnteza a favor. Fomos o 32º barco a chegar, 1º na classe aberta b.Na Ilha

Depois de 2000 milhas navegadas, estou começando a aprender e entender a meteorologia. Deu tudo certo. Com ajuda dos amigos da Paraíba, velas bem trimadas, muita sorte de principiante e uma companheira com muita paciência, chegamos às 23:30 hs em Fernando de Noronha. Eu estava muito cansado, tanto que briguei com a Catarina por um motivo tão bobo que não me recordo mais qual foi.

No dia seguinte, a Ilha e um pequeno susto. Continua….

Vejam ainda no youtube, o vídeo "Refeno 2009 - parte 1/6", vocês vão ver o WA WA TOO  largando com gennaker, ao lado do Planckton, e o Luthier chegando por trás.

http://www.youtube.com/watch?v=ayXgAvB30Z0

Veleiro Luthier, 1º na classe Aberta B da Refeno 2009

O veleiro Luthier tripulado pelo Capitão Dorival e imediata Catarina cumpriu o percurso da regata em pouco mais de 56 horas e classificou-se em primeiro lugar na classe aberta B da Refeno (barcos menores que 40 pés). Veja na página oficial da regata em www.refeno.com.br  e a classificação em www.refeno.com.br/admin/regata_rel_abertab.php

Parabéns Dorival e Catarina. Vamos aguardar o relato desta travessia com ansiedade.

Luthier em Noronha

Reproduzo abaixo trechos do e-mail recebido agora há pouco:

Oi João,
Largamos na primeira turma, às 15:20. Passamos a linha 5 minutos depois da largada, por uma bobeira minha, achei que ia queimar, e o vento diminuiu, sairia em primeiro, mas saí em sexto.
Com vento de E de 12 nós, após dois bem sucedidos bordos, montamos a boia em terceiro. Dois barcos grandes ficaram para trás dentro do canal.
Logo depois, 3 horas, demos uma bobeira no rizo da vela, e perdemos uns 20 minutos. Em seguida, o vento apertou e  virou nordeste. Depois de dois bordos, com o vento diminuindo para 10/8 nós, resolvi dar um bordo e rumar para leste, andamos 22 milhas a 4 nós. Depois foi só ir orçando em direção da linha reta que marquei entre a boia norte do porto do Recife e a Ponta da Sapata. Deu certo, achei mais vento que o pessoal, fizemos 100 milhas nas primeiras 24 horas, e andamos a 7,5 nós em uma orça folgada nas ultimas 24 horas, cheguei a ter mais de 8 no GPS, mas era a corrente me ajudando.
Fomos o 32º barco a chegar.
O Barco está inteiro, não quebrou nada.
Depois comento mais, vou tomar um café e voltar a dormir.
Abraço
Dorival

Salvador >> Maceió >> Recife no Luthier

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Versão da Catarina

Nos últimos dias que passamos em Salvador, antes de seguirmos para Recife, começaram a chegar os primeiros barcos brasileiros, para participar da Refeno. Até então, só estávamos tendo contato com barcos estrangeiros, e deu para aprender bastante coisa com eles.
Aprendi a fazer o “Pão da Tracy”, uma sul-africana que perdeu 11 quilos na travessia para o Brasil, de tanto enjoar, e me deu empolgada sua receita. Comi do pão, feito por ela, numa reunião de velejadores, na prainha de Itaparica. É muito prático de fazer, porque só leva farinha, água, e fermento em pó, não o biológico, sendo “assado” numa frigideira antiaderente; se não for comido na hora, vira uma pedra. Não se compara ao pão assado, feito com fermento biológico; dá até para suspeitar do porquê ela teria emagrecido tanto. Concluí que esta seria minha última opção, numa travessia.
Achei interessante o modo como assam o peixe e o frango numa fogueira, enrolados no papel alumínio. Conseguem fazer um bom jantar com poucos recursos.
Também aprendi a comer “fondue”, à moda suíça, acompanhado de uma bebida à base de cerejas, para molhar o pão, e de vinho branco. Dá para imaginar o suador que causa uma comida dessas no calor de Salvador, com aquela panela acesa permanentemente, em cima da mesa de servir, somado ao calor de um lampião, bem em cima de nossas cabeças. Os anfitriões quiseram servir o que eles têm de melhor, foram muito delicados. Só não consigo aprender a gostar de vinho branco.
Eles também estranham nossas comidas: uma holandesa me disse, num churrasco em um barco brasileiro, que nossa farofa parecia areia da praia; de certa forma, ela tem razão.
Salvador voltarei Na nossa saída da Baía de Todos os Santos, no dia 27/08, com destino a Recife, o Dorival me saudou “_Bem-vinda ao clube”, quando subi no cockpit para vomitar. O mar estava batido, e eu dei uma bobeira: ao invés de ficar lá fora, me acostumando ao balanço, resolvi lavar a louça do café da manhã, naquela neura de deixar tudo limpo, arrumado. Meu corpo também não estava na melhor forma, ainda estava me recuperando de um resfriado, um pouco congestionada. Sei que enjoar é muito ruim!
Me lembrei dos baianos e clamei: misericórdia! Pensei na minha mãe, nos amigos novos que fizemos, e nos antigos, em coisas boas da vida, e cochilei. Quando acordei, já estava me sentindo melhor. Logo depois, me deu uma fominha, comi e fiquei bem. Para o Dorival, a misericórdia não veio tão cedo, mesmo tomando remédios; eu jurei que iria levá-lo para fazer acupuntura no Recife, quando chegássemos, minha última esperança. Dava desespero vê-lo desidratar.
Já aprendi que, para subir a Costa com frente fria se pega vento favorável, o que é bom, mas junto vem o mar mais alto, então paciência, tem que se acostumar ao desconforto. Pelo menos, pudemos velejar a maior parte do trajeto, mas pegamos muita chuva.
Próximo à Aracajú, fomos acompanhados por muitos golfinhos, que cercavam o barco. Pareceram-me menores do que os que eu já vi, e com o dorso mais escuro.
À noite quase não havia barcos de pesca, pois passamos para lá da Plataforma Continental, em profundidades elevadas, mas avistei alguns cargueiros; um deles passou um pouco mais perto, a uma distância segura, parecendo uma árvore de natal, de tão iluminado; fiquei pensando em quantas árvores ele não teria que plantar, para compensar tamanho consumo de energia.
Na manhã do dia 28, acordamos com peixinhos no convés, provavelmente atraídos pelas luzes de navegação.
A chuva, e a nossa condição física nessa viagem, que não estava das melhores, fez com que avaliássemos a possibilidade de parar em Maceió, para descansar, e foi o que fizemos. Lá chegamos no dia 29, às 7:30 horas. Pegamos uma poita da Federação de Vela de Maceió, perto do Porto. Logo fomos abordados por um barqueiro, que faz o trajeto até a Federação, e vende água e diesel.
As águas que cercam Maceió são de um verde mais claro que as de Salvador, e contrastam com o azul do mar de maior profundidade de lá de fora. E quanta luminosidade!
O desembarque na Federação é feito no meio de lixo, muitos sacos e embalagens na prainha que fica em frente; achei meio trágico quando o barqueiro indicou um saco preto cheio, sabe-se lá do que, para que eu pisasse, como apoio ao desembarque. Isso é que é entrar pela porta dos fundos de um lugar! Como diz a Cássia Eller: “explicação, não tem explicação, não tem, não tem”.
A Federação dá para uma rua que chega à orla de Maceió, na Praia de Pajussara, muito bonita, com bancos de areia em frente, e muitos saveiros de passeio.
Depois de 2 dias de descanso partimos para Recife, na expectativa de pegar uma janelinha de tempo com vento favorável, que se confirmou no nosso trajeto: velejamos praticamente o tempo todo. Pegamos um Pirajá, do qual não foi possível desviar, que trouxe ventos de 30 nós, e chuva.
Na altura da Barra de Camaragibe, uma grata surpresa: duas baleias passaram numa rota paralela à nossa, dando saltos para trás, soltando borrifos dágua, fazendo arruaça; daí para a frente, vimos muitas delas, dando show para nós.
A ótima novidade do trajeto foi o Dorival não vomitar. Tive companhia para conversar, pudemos dividir melhor os turnos, fiquei mais tranquila por ele estar bem. Como dizem os baianos: “Deus é mais”.
Chegamos em Recife no dia 1º de setembro, e rumamos paro Iate Clube Cabanga, não sem antes encalharmos no Canal. Íamos esperar a maré subir, quando o clube mandou apoio. Encalhamos de novo na entrada da vaga.
Agora vamos explorar a cidade, e preparar o barco para a Regata, “visse”?

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Versão do Dorival

Voltamos de Itaparica para Salvador (TENAB) com a intenção de preparar o Luthier para viajar para o Recife. A idéia era ficar uma semana no máximo, e voltar para Itaparica para esperar uma boa janela de tempo. Mas as coisas nunca são assim tão precisas, logo fiquei com uma gripe forte, que começou com uma dor de garganta, dor de cabeça e, quando apareceu a febre, fomos a um Hospital.
No Hospital Santa Isabel me foi informado que o atendimento demoraria porque havia muita gente no pronto socorro devido à ocorrência da Influenza A (H1N1). Prontamente, deram uma máscara para mim e outra para a Catarina. Depois de duas horas, fui muito bem atendido, o médico me examinou e diagnosticou que não era Influenza A, mas uma variação da gripe comum que na Bahia está ocorrendo, com a característica especial de provocar uma dor de cabeça muito intensa. Fui medicado e fiquei com “dengo” 3 dias no Luthier, sem fazer praticamente nada. Acreditem, não me lembro ter sido tratado com tanto carinho e cuidado como nesse hospital.
Claro que, na sequência, a Catarina também ficou doente, mas de uma forma muito mais amena. Enquanto não ficamos curados, tive a oportunidade de ter, por dois dias, a bordo do Luthier, um AIS classe B. Gostei muito, pode-se ver a posição, nome, rota e velocidade de todos os navios em um range de 10 milhas (depende da altura da antena). Também iniciei o acompanhamento, pelo SSB, de um veleiro que estava viajando para a Europa. No TENAB, com a grande quantidade de mastros à volta, geladeiras e carregadores de bateria gerando ruído, a recepção foi muito prejudicada mas, mesmo assim, consegui contato. Os tripulantes do veleiro estavam bem.
Dia 27 de Agosto, seguimos com uma rota planejada diretamente para Recife. Enquanto saíamos da Baia de Todos os Santos tivemos vento contra e, devido aos 29 navios ancorados, preferi motorar. Logo que saímos, um vento SE (través) nos permitiu velejar a 6,5 nós. Em seguida, fomos brindados com chuva, muita chuva, o mar aumentou, e o vento começou a aumentar até 25 nós e cair a 5 nós, em intervalos de algumas horas. Todo esse movimento, ajustar velas, chuva, ligar motor, desligar motor, etc., me fez passar mal, vomitei muito. Foram 43 horas dessa forma. Decidimos parar em Maceió para descansar.
Maceió A viagem de Salvador a Maceió levou 47 horas, 12 delas usando motor. A velocidade média foi de pouco mais de 6 nós. Ficamos em Maceió dois dias, fomos até a praia de Pajussara (em alguns lugares com outra grafia - Pajuçara). Usamos uma poita muito boa e bem posicionada, mas o desembarque é em uma praia onde não se vê a areia, só têm sacos de lixo. É um lixão.
Na poita, em Maceió, e também porque a propagação melhorou, pude entrar em contato todo dia com o veleiro que eu estava acompanhando, que, a essa altura, já estava viajando de Cabo Verde para as Ilhas Canárias. Eles estavam enfrentando ondas altas e ventos fortes. Pude passar as previsões do tempo pelo rádio SSB diariamente. Todo dia anotei a posição, o rumo verdadeiro e a velocidade, para passar para os amigos que estavam apreensivos e também para que o comandante do veleiro se sentisse melhor, porque sabia que eu o estava acompanhando. As previsões, elaboradas com a ajuda de um amigo mais experiente, ajudaram que eles se preparassem para enfrentar o tempo, e decidissem pelo melhor rumo.
Saímos de Maceió dia 31 às 9:30 hs, com previsão de ventos SE e ondas de 1,5 metros. A viagem de Maceió até Recife foi “ÓTIMA”: enjoei pouco e não vomitei, o vento foi se alterando caprichosamente, de forma que enquanto eu contornava a costa sempre tinha um través muito gostoso; as ondas estavam com 1,5 metros em média com período de 6 segundos, consegui falar com o veleiro que estava acompanhando sem qualquer problema de interferência no funcionamento dos instrumentos e equipamentos do Luthier.
Agradeço aos amigos que fizeram muitas sugestões sobre controle do enjôo. O que deu certo para mim, desta vez, foi não tomar remédio, nenhum mesmo. Manter o estomago cheio, mas não muito, ajuda bastante, também. Talvez eu esteja acostumando.
A viagem de Maceió até Recife levou 22 horas, velejamos quase todo o tempo, desde 100 metros da poita em Maceió até 2 milhas do molhe que fica em frente à entrada do canal. A entrada foi feita a motor, devagar, porque havia muitas canoas de pesca e eu não conhecia a região. A velocidade média foi de 6 nós.
Fomos muito bem recebidos no Cabanga, o Clube ainda está vazio e calmo. Por isso, com pouca interferência, consegui acompanhar, pelo SSB, por mais dois dias, a viagem do outro veleiro. Fiquei feliz de saber que eles estão bem, superaram as condições de mar e vento e estão quase chegando nas Ilhas Canárias.
Recife Cabanga Hoje em dia, existem muitas formas de comunicação para quem está no mar, principalmente, via Satélite, mas eu acho que: o velho e bom SSB, que permite a comunicação grátis e independente, para tomar a posição e outros dados de navegação, aliado à espera da hora marcada para a conversa, acaba por fazer o dia passar mais rápido, é humano, ajuda muito saber que independente de terceiros (operadoras), haverá do outro lado alguém com quem falar.
O Sol que tem como um de seus caprichos ciclos de 11 anos no número de manchas, que alteram o seu fluxo de radiação eletromagnética, é um dos fatores preponderantes na propagação de sinais radioelétricos. Hoje estamos saindo do fundo do poço, praticamente não há manchas solares, e a propagação anda ruim. Daqui a um ano, mais ou menos, com o início de um novo ciclo de 11 anos, a propagação vai melhorar muito.
Agora vamos aproveitar Recife, preparar o Luthier para a regata (REFENO), e aprender como é que se faz uma largada, o que para mim é novidade completa. Aceito dicas, palpites etc. que me ajudem a não ganhar o prêmio PATO.
Em Salvador lavei toda a roupa, mas já acumulou outra vez.

Os dias em Itaparica com o Luthier

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Versão da Catarina

Quantas novidades no linguajar da Ilha de Itaparica!
No supermercado Bom Preço, em Vera Cruz, me deparei com os seguintes cortes de carne: “CHUPA MOLHO”, “CAPOTE”, e “CRUZ MACHADO”. Eu nunca tinha ouvido falar neles… A cena se repete: pedi ajuda ao açougueiro, e ele me mostrou as costas e outras partes do corpo dele próprio; não ajudou. Como dizem por aqui: “Ave Maria! Que agonia!” Como é que pode, em um mesmo país, tanta denominação diferente para a mesma coisa?
Itaparica Dentro do supermercado, nós fomos abordados por um taxista, que perguntou se estávamos na marina, e ofereceu os seus serviços, por R$20,00. Não somos estrangeiros, mas somos de fora, e a consequência é a mesma, o preço mais alto. Pegamos um “táxi pequeno”, um Fiat Uno que cobra R$2,50 por pessoa, faz lotação, e volta para a cidade de Itaparica pela estrada asfaltada da Ilha.
No Mercado da rua da praia, no Município de Itaparica, achei algumas opções de frutas, legumes, carnes e peixes, mas tudo é mais precário. O peixe é fresco, mas não o conservam no gelo, o que não combina com o calor de 30ºC do inverno baiano. Lá, o comerciante me informou que “tratava” o peixe. Como, se ele está morto? Claro, ele quis dizer que “limpa”, tirando as escamas e a barrigada. Depois, pediu “miúdo” para o pagamento.
É bom o Dorival aprender a pescar. Das últimas vezes em que ele tentou, eu fiz com que ele devolvesse, ou porque achei que fosse filhote (e não era), ou porque era um bagre amarelo, e eu fiquei com medo dos ferrões. Acho que ele ainda não acertou o tipo, e o tamanho da isca. E eu não acertei no incentivo.
Aqui também tem acarajé, e a baiana que vende disse que, em Salvador, o camarão na massa “é longe”; acho que ela quis dizer que, lá, colocam “pouco” do crustáceo. Discordo, o do lá, do Comércio, é mais bem servido, e saboroso, além ser frito na hora, e tem ainda o dengo da baiana, que me chama de “minha menina”; quer mais?
Itaparica coroa Itaparica é uma típica cidade pequena, com muitas casinhas geminadas, em que todos se conhecem, e se cumprimentam, Nos finais de tarde, os meninos jogam bola na rua, com o uniforme da escola, e as meninas desfilam, parecendo bonecas de porcelana, perfeitas, com o cabelo todo enfeitado por tranças e laços. Nos fins de semana, os homens escutam futebol no radinho de pilha, e as pessoas jogam cartas, com as portas e janelas das casas abertas. Nada que combine com os episódios de violência ocorridos por aqui, sinal de que bem poucos podem fazer muito estrago. Como explicam os comerciantes, a culpa é do avanço do tráfico de drogas, principalmente, o “crack”. Já as pessoas do povo, acham que é serviço do anjo caído, daquele que não se pronuncia o nome dentro dos barcos, assediando os jovens com a promessa de vida fácil. Então, que Nosso Senhor do Bonfim nos proteja.
A sensação do lugar é andar na coroa de areia descoberta pela maré baixa, pisar em seco no que vai ser o fundo do mar, em poucas horas. E corra, porque ela sobe depressa….Melhor ainda é levar uma âncora para o bote não ser surpreendido.
Bom daqui, também, é a fonte de água mineral, testada e aprovada, disponível a todos, e o apoio da Marina, aonde você pode desembarcar, mesmo ancorando fora.
Nos finais de semana, chegam lanchas com motores possantes, em alta velocidade, fazendo marolas; uma dessas nos surpreendeu no bote, e nos jogou com força em direção à popa do barco. Vaias e mais outras cobras e lagartos para o condutor!
Resolvemos passear em Salinas Margarida, a uma hora e meia daqui, ou 9 milhas náuticas, aproximadamente. Quem fez o planejamento da navegação fui eu; primeiro, nas cartas de papel, para não esquecer os conceitos, depois, passei tudo para o GPS, que vai guiar o piloto automático, nossos confortos modernos. Tá bom, eu errei nas aproximações, mas tudo foi checado a tempo.
Incrível, quando estávamos saindo, o céu escureceu completamente, e fomos surpreendidos por rajadas de vento de 25 nós. Velejamos embaixo de chuva pesada. Voltamos para dormir em Itaparica, porque lá não tinha nenhum veleiro perto de onde podíamos fundear.
Poço de gás na coroa Eu sou um perigo à navegação. Fique longe quando eu estiver no controle do bote inflável, ou na atracação. É que as situações de risco aparecem do nada, e exigem rapidez, mas eu sou lenta. Não devia ter faltado às aulas de Educação Física, aos jogos de voleibol, etc… Além disso, eu tenho dificuldades geográficas, saber onde estou na carta náutica, qual é a Ilha que estou avistando, e por aí vai… Ah,tenho dificuldades com nós, pedi para uma tia minha fazer um sapatinho de tricô, para eu passar em Educação Artística.
É muita informação! Mas eu estou praticando, e o Dorival não dá moleza. Alguma semelhança com o serviço militar? Alerta total, disciplina, planejamento, treinamentos… Mas é a sobrevivência, né? Então, vale tudo.
Termino com um trecho de uma música antiga: “dicen que viajando se fortalece el corazon, pues andar neuvos caminos te hace olvidar el anterior”. (Canción “Solo se trata de vivir”, de Litto Nebbia)

Vale lembrar que respirar oxida, comer oxida, então, melhor é viver a vida. Muito axé, para todos nós!

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Versão do Dorival

A Ilha de Itaparica fica linda iluminada pelos mesmos raios de sol que brilham no mar que a rodeia. Nela há dois municípios: Itaparica e Vera Cruz. O pequeno centro velho do Município de Itaparica, no inverno, é quase desabitado. Suas ruas, arborizadas e limpas, ficam vazias o dia todo. O comércio é fraco, a sorveteria só tem uns poucos sabores à venda, muitos restaurantes só abrem na temporada, e um hotel próximo à marina opera unicamente o primeiro andar.
O povo local é muito amável e educado, qualquer um que você cruzar na rua lhe dirá um bom dia. Há, ainda, uma argentina doida que mora em uma cobertura de uma praça próxima a uma padaria, onde só trabalham mulheres. Claro que a cor predominante na pintura da padaria é o rosa.
Enquanto a Catarina escolhia pães e frutas, vi a dona da padaria chamar atenção de uma funcionária porque ela estaria flertando com o marido de uma freguesa e, se não parasse com isso, seria demitida. Ela justificou que era fofoca do povo lá de baixo (não sei onde é), mas a dona disse que se o povo todo diz é porque é verdade. Esse assunto por aqui é sério, costuma terminar em violência.
A miséria está escondida mais adentro da ilha.
Ancoragem vista da coroa A ancoragem entre a praia e a coroa de areia, em profundidades de 6 metros, é muito boa, o fundo é de lama, o que oferece uma boa tensa. A entrada é sinalizada por bóias cegas, com um X (balizamento especial), não mantidas pela Marinha. Há muitas bóias e sinais de balizamento: perigo isolado, sinais cardinais, etc.. Existem alguns poços de gás da Petrobrás que também são sinalizados.
À noite, os poços emitem luz vermelha piscando uma vez a cada 5 segundos; os demais sinais luminosos têm seus períodos e cor conforme informados na carta náutica.
Dediquei algum tempo à noite identificando esses sinais e balizas, caso fosse necessário sair no escuro. Disseram-me que esta ancoragem não é muito abrigada para ventos SW. Realmente, com 20 nós, o mar levanta um pouco, mas não chega nem perto do efeito do NE em Búzios. É seguro, sem problemas e, até agora, o SW não durou mais que 12 horas.
Coroa Itaparica Planejamos uma rota entre Itaparica e Salinas, passando pelos pontos de maior profundidade. Saímos em um domingo, às 11:00 hs. Ainda ancorados, sem vento, levantei a vela mestra para ver se estava tudo em ordem. Sem vento, liguei o motor e, com a mestra em cima, comecei a recolher a âncora. A Catarina estava no leme, o motor desengatado, eu limpava a lama da âncora, ainda pendurada próximo à água, quando entrou um vento de 15 nós (mais ou menos, não olhei o medidor). O Luthier entrou em uma orça fechada e saiu a navegar com uns 4 nós de velocidade dando muito trabalho para a Catarina governá-lo no meio dos barcos. Recolhi a âncora ainda suja, e tomei o leme para render a Catarina, que estava assustada; fiz a volta por trás de um catamarã e saímos da ancoragem com vento de popa, só com a mestra, a 6 nós. Muita gente ficou olhando com ar de reprovação, e com razão. Logo em seguida, notei a nuvem escura que vinha por trás da ilha. Além disso, deveria ter visto os sinais de vento no mar mais distante. Lição do dia: em ancoragens lotadas, mesmo sem vento, não levantar âncora com velas abertas. O motor não vai ajudar muito.
Logo que saímos do canal, resolvi voltar, porque iniciou uma chuva pesada. Essa chuva, razão do vento repentino, não durou mais que 10 minutos, e se foi. Com o vento acalmando, e uma abertura no céu, retomamos a rota para Salinas.
Velejamos até Salinas e ancoramos próximo a um píer. A profundidade era de 4 metros. Estávamos sós. Na praia tinha um jogo de futebol e, além de um restaurante com alguns fregueses, a cidade parecia deserta, domingão de inverno por aqui é assim mesmo.
Almoçamos no Luthier e voltamos para Itaparica velejando.
No meio do caminho de volta apanhamos outra chuva gelada. Fiquei resfriado, com uma moleza incrível, há dois dias que tenho preguiça de fazer qualquer coisa. Ainda bem que não estou com febre, não deve ser H1N1, nem dengue, acho que é DENGO mesmo.
Com esse DENGO, e o tempo que chove a qualquer hora, a roupa para lavar está se acumulando (sou eu que lavo a roupa), e já preciso lavar o barco outra vez. Para judiar um pouco mais, apareceu um vazamento de água salgada na bomba de pé da bica da cozinha. Esses pequenos problemas de manutenção têm que ser resolvidos logo, para que não virem um grande problema, tanto no serviço quanto no custo.
Agora vou dormir, até a próxima.

Saída para Itaparica – Veleiro Luthier

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Versão da Catarina

Tem um assunto que aterroriza qualquer comandante de embarcação, e sua tripulação, homem ou mulher, de qualquer nacionalidade. Não é tubarão, mar grosso ou temporal, nem ferro garrando, ou alma penada, é a …barata. Todo mundo tem uma estória de horror para contar.
Quando chegamos no TENAB, havia um veleiro alemão infestado por elas. O comandante resolveu fechar o barco e dedetizá-lo. Deixou o gato de estimação no veleiro chileno, atracado por nosso bombordo, que também estava tomado pelas ditas cujas.
Contou-me a tripulante de um veleiro holandês, com a feição visivelmente transtornada, ter pego a praga em Israel, e que veneno nenhum teria dado jeito; teve que fechar o barco num inverno rigoroso, sem água, nem comida, e elas finalmente morreram, por inanição. Hoje, ela deixa as frutas e legumes pendurados no cockpit, ou os coloca direto na geladeira, e seca as pias todas as noites. Será que isso já não é paranoia?
Um casal sul-africano nos contou que elas estão fora de controle em seu país, aliás, eles as têm no barco. Dizem que, como o ciclo das “cucarachas” é curto, já nascem e se reproduzem antes de morrer com o veneno, deixando ovos postos, para eclodirem. Eles foram nos visitar, e eu fiquei olhando fixamente para a mochila de onde tiraram o laptop, para ver se não saia nenhuma dali. Acho que estou ficando paranoica…
Saída de Salvador Mas todos são unânimes quanto a tirar as embalagens de papelão dos alimentos e produtos que entram no barco, e até os seus rótulos. Que mais se pode fazer?
Falando de bicho melhor, nossa diversão no TENAB era jogar pão amanhecido para os peixes, porque a água é transparente e aparecem muitos, sargentos, manjubas, e outros coloridos. Chamávamos nosso vizinho uruguaio, que adorava fazer isso, tanto que os peixes andavam atrás dele. Um dia, apareceu no cais um moço de camisa vermelha, para ver a brincadeira, e os peixes se esconderam, rapidinho. Essa cor desagrada muitos animais, de papagaio ao touro.
Agora estamos em Itaparica, para meu deleite. O Dorival queria ficar mais uns dias em Salvador, porque ele adorou aquele lugar, e ainda queria comprar uns parafusos na Calçada, uns acessórios no Taboão, visitar outros museus e igrejas, apreciar o sagrado acarajé da baiana, etc… Mas ficou para depois; ainda voltamos lá, antes de irmos para Recife.
E nos últimos dias em Salvador, num final de tarde, o Dorival me avisou que estava saindo para resgatar um veleiro à deriva, junto com um skipper espanhol. Depois de uma meia hora, vi o espanhol voltando sozinho no bote. Quando chegou, me avisou que o Dorival tinha conhecido “una chica muy guapa”, e tinha ficado por lá. Palhaçada dele, mas nessa vida tem que dar risada, mesmo. E afinal, nada que não se resolva com ácido, como aprendi por aqui: uma mulher jogou ácido em outra, suposta amante de seu companheiro, em um salão de beleza no Pelourinho.
Veleiro encalhado na coroa Bem, ele me avisou que o Dorival tinha ficado para trazer o barco na vela, porque estavam sem motor, e iriam se comunicar conosco pelo rádio, sendo que a operação deveria durar mais de 1 hora. Então, entrei no barco e fui fazer um lanche para mim. Uns 15 minutos depois, chamou uma mulher, pelo rádio, identificou-se e disse que estavam vindo à vela; perguntei se precisavam de mais algum apoio, e como ela respondeu que estava tudo sob controle, fiquei aguardando nova chamada. Uma meia hora depois, ela me disse que estavam no Forte de São Marcelo, logo ali em frente. Saí depressa, chamando pelos tripulantes uruguaios do barco ao lado, que saíram atarantados, perguntando: “que pasa?”. O skipper do trimarã estava ouvindo nossa conversa pelo rádio, e tinha saído antes, com o bote, para ajudar na atracação, que por fim foi feita com dois botes.
Deu tudo certo. Todos chegaram bem, barco e tripulação. Ganhamos um vinho.
Como tudo é festa, fomos almoçar no trimaran no dia seguinte, e compartilhar o vinho. E o skipper espanhol, que já trabalhou com golfinhos e baleias, e nas filmagens do “Blue Planet” da BBC, nos contou que os parques aquáticos enchem esses bichos de tranquilizantes, para mantê-los confinados, e que, naquele famoso vídeo em que uma baleia orca pula por cima de outra, com o treinador no meio, a motivação foi o ciúme do treinador. Os relacionamentos ficam bem atrapalhados.
Fizemos uma boa viagem para Itaparica, com pouco vento. Insistimos na vela um bom tempo, andando a três nós. Tempo para observar muitos navios cargueiros e a paisagem de morrinhos de, no máximo, 100m de altura, tão diferentes da Serra do
Veleiros em ItaparicaMar, de mais de 1000 metros, que se avista no litoral do sudeste.
Cá estamos, ancorados numa piscina, com coroas por todos os lados. Assim, o Luthier gosta. E eu também.
Quando chegamos, encontramos um veleiro de bandeira holandesa, que estava no TENAB. Nos contaram que estavam sem motor, e sugerimos que eles voltassem na vela, caso não conseguissem consertá-lo, já que tinha começado a soprar um bom sudoeste. E foi o que fizeram. Lá se foi mais um barco “sin maquina” para o Cais Cayru.
Para encerrar, não gosto das mudanças ortográficas; alguns estudiosos da língua se recusam a aceitá-las, e dizem que vão fazê-lo só a partir de 2012.
O resto fica para a próxima. Como escutei aqui, no rádio: “que aconteça tudo de bom para você”.

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Versão do Dorival

A saída do TENAB para Itaparica atrasou um pouco porque ficamos esperando o enchimento de um botijão de gás, e me envolvi com o resgate de um veleiro, que estava à deriva na Bahia de Todos os Santos.
Na tarde de sexta-feira do dia 17 de julho, eu estava conversando, no cais, com o capitão de um trimarã de 63 pés, um espanhol muito simpático e experiente, quando fomos interrompidos por um funcionário do TENAB que havia recebido um telefonema pedindo ajuda para resgate de um veleiro, que estava sem motor, à deriva, próximo à Ilha de Itaparica, na face que fica em frente à Salvador.
O Veleiro saiu de Itaparica rebocado por uma pequena traineira. O leme da traineira quebrou e os dois estavam à deriva, próximos a um navio ancorado, quando, de bote, chegamos eu e o capitão do trimarã. Subi no veleiro e desci na cabine para ver se estava fazendo água, enquanto isso, meu companheiro passava a nossa posição para a Capitania dos Portos e soltava as amarras que prendiam o veleiro à traineira. O veleiro não estava fazendo água. Assim que soltamos os barcos, abri a genoa e velejamos para fora da proa do navio, que buzinava a cada 2 minutos. Estávamos, mais ou menos, a 100 metros do navio. O casal a bordo do veleiro, 36 pés, estava bastante assustado; tratei de acalmá-los continuando a velejar, só com genoa, com o vento de popa, para afastar do navio até uma posição segura. A lancha da Capitania dos Portos, depois de verificar que estávamos bem, foi rebocar a traineira até o TENAB. Depois de desenroscar vários cabos, levantei a mestra e começamos a velejar em uma orça fechada, dando vários bordos até chegar próximo ao Forte de São Marcelo. Enrolei a genoa e baixei a mestra quando estava entre o molhe e a bóia cega, que fica ao lado do forte. Dois botes já nos esperavam para ajudar na atracação. Levamos 45 minutos para chegar, o vento de 16 nós permitiu velocidades de 6 a 6,5 nós. Pedi à mulher que estava a bordo para falar no rádio com a Catarina. Acho que a voz tranquila da Catarina ajudou que ela se acalmasse. Sem heroísmo algum, chegamos tranquilos, em uma velejada noturna muito gostosa.
Depois desse evento, por menor que seja a navegação que eu for fazer a motor, e seja aonde for, vou deixar o Luthier prontinho para velejar, porque ter que arrumar os cabos na correria, porque o motor parou, em geral, complica muito.
Os estais do Luthier estão com apenas seis meses de uso e 1250 milhas navegadas, a maior parte costeira. Notei que a tensão nos cabos de aço caiu muito na viagem de Vitória para Salvador, por isso, refiz a regulagem.
Prendi o botijão de gás (de alumínio, operação horizontal) na targa, mas deixei para terminar a instalação em Itaparica, porque vou ter que fazer um furo de passagem para mangueira, selar a madeira com epóxi, instalar um flange com sikaflex, etc…
Saída de Salvador 1 Saímos para Itaparica dia 20 de julho às 10:00 hs, com vento de través bem fraco, 5 a 6 nós, que nos levou a 3 nós até o meio da baia, onde começamos a orçar. Próximo à Itaparica o vento parou (menos de 3 nós), ligamos o motor e, sem pressa, fomos a 5 nós até a região da marina em Itaparica.
Eu e a Catarina temos um acordo: em locais abrigados, se não houver razão para pressa, só ligamos o motor se não for possível velejar a mais do que 3 nós.
Há, na minha opinião, uma grande diferença entre velejar em mar aberto (navegação costeira) e em regiões abrigadas.
Na navegação costeira, em geral (pelo menos no inverno), os ventos e ondas envolvidos são maiores do que em regiões abrigadas, e as mudanças climáticas podem ser um fator importante, limitando o tempo disponível para se chegar ao destino. Até agora, adotei, por sugestão de amigos mais experientes, 6 nós como velocidade média desejada. Toda vez que a velocidade média poderia ser comprometida, eu usei o motor para ajudar. Talvez no verão as janelas de tempo para as travessias sejam maiores e possamos adotar outra velocidade. O Vento, em geral maior que 15 nós, além de obrigar o uso de rizo, não exige ajuste fino da regulagem das velas para se conseguir a velocidade desejada. Nesse tipo de navegação adoto mais critérios de segurança e conforto no ajuste das velas, do que desempenho, tudo dependendo da condição do mar.
Em baias e outros lugares abrigados, velejar é bem diferente. O mar em geral é calmo, e os ventos abaixo de 15 nós. Na época em que eu tinha que voltar para a marina em tempo de viajar para trabalhar, depois de um feriadão ou fim de semana, não dava para ficar velejando devagar. Ligar o motor era a única opção. Depois que viemos morar a bordo, se o tempo está bom, adoro velejar com pouco vento, e ficar fazendo ajustes finos nas velas para ganhar imaginários 0,1 nós de velocidade. Uso genaker ou balão, e vamos devagarzinho curtindo a paisagem. Assim foi nas diversas idas e vindas de Paraty para Angra, entre Bracuhy e Vila do Abraão, e agora de Salvador até perto de Itaparica.
Velejando para Itaparica Ainda estou estudando as cartas aqui da região, existem muitos bancos e coroas de areia. Em alguns lugares a passagem não é larga o suficiente para ficar cambando e orçando. Dependendo do vento, do clima e do destino, vamos ter que usar motor, por segurança. O Luthier tem quilha de bulbo com fundo chato. Ainda não tive a experiência, mas me contaram que encalhar na areia com esse tipo de quilha costuma ser uma encrenca das boas para desencalhar. Não pretendo testar.
Estamos ancorados entre a marina e uma coroa de areia, que na maré baixa fica toda à mostra. O espancamento de um casal de franceses em dezembro do ano passado e o assassinato de um velejador no início do ano ainda estão bem presentes na memória dos moradores locais. Estamos dormindo trancados.
A cidade está deserta, baixa temporada. O lugar é lindo, têm outros 29 veleiros ancorados por aqui. Já emagreci um quilo.

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